“Papel passado, amor presente”
Há homens que escrevem por profissão. E há os que escrevem por devoção.
Por Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada
Hamilton Roberto Aiello é dos que fazem da palavra abrigo e do silêncio, história.
Advogado, jornalista, homem de fé e de princípios. Foi na calma dos dias e na firmeza das escolhas que construiu não apenas uma trajetória, mas um legado que ultrapassa o tempo das pessoas, para tocar o tempo de uma cidade inteira.
Filho de dona Maria Mirabelli e do Comendador João Aiello, herdou mais que o nome: herdou o jornal da família – Cidade de Taquaritinga – onde cada edição foi uma moldura do cotidiano, cada manchete, uma fotografia do tempo, cada coluna, uma carta de amor à terra onde nasceu.
No dia 25 de julho de 2025, esse amor virou páginas novamente.
Lançou seu segundo livro – Atravessando a 2ª Guerra Mundial – em que folheia o passado com olhos de saudade e o coração de quem nunca quis perdê-lo.

Cada imagem foi escolhida com o zelo de um colecionador de afetos.
Cada linha foi escrita com a pontuação da memória.
Manuseou cada página do seu acervo como quem folheia um álbum de família.
Mas Taquaritinga, tão cheia de histórias, ainda não aprendeu a se ouvir com a atenção que merece.
Faltam casas onde a cultura se acomode.
Faltam bibliotecas onde o passado encontre morada.
Falta o cuidado com aquilo que constrói a nossa ideia de pertencimento.
O acervo do jornal, um tesouro vivo, repousa em sua casa, guardado com o mesmo cuidado de quem ama em silêncio.
Mas ele precisa respirar outros ares.
Precisa ser visto, lido, estudado, preservado.
Precisa de mãos, de vozes, de espaço.
Precisa de gente que entenda que o passado só permanece quando alguém o carrega no presente.
E quem o conhece é testemunha do homem que não apenas escreve, mas cultiva a palavra com a paciência de quem planta.
A memória, com o cuidado de quem rega o que não quer ver morrer.
Não escreve para si, mas para que a cidade não se esqueça de si mesma, pois, para ele, contar histórias é cultivar lembranças, verdades, silêncios – e, sobretudo, amor.
Um amor sereno e insistente por esta cidade, que se traduziu em páginas, memórias e gestos silenciosos.
Talvez, um dia, Taquaritinga devolva em espaço e cuidado o que recebeu em palavras e devoção.
Aqueles que narram o tempo com o coração não pedem recompensas, mas merecem permanência.
Certos afetos resistem às décadas porque não foram escritos apenas para serem lidos, mas para pertencer.
E quando algo é escrito com alma, nem o esquecimento ousa tocar.

