NEM TUDO ESTAVA ERRADO

Quando um novo governo chega, ele costuma chegar com aquela sede de mudar tudo. Traz na bagagem promessas frescas, discursos inflamados, projetos ousados e a certeza de que está aqui para consertar o que foi feito antes. É quase um ritual: desfazer, desmanchar, recomeçar.

Mas a vida, como a política, é mais complicada. E nem tudo estava errado.

A administração pública, não funciona sob o impulso do ego. É lugar de continuidade, não de vaidade. Por isso, quando o novo gestor chega “com sangue nos olhos”, como se diz, corre o risco de tropeçar na própria pressa. Foi o caso.

Veio com sede de mudança e uma caneta na mão. E com ela, riscou as oito horas de expediente que garantiam um atendimento minimamente funcional à população. Retomou as seis horas, como se tudo o que existia antes fosse um erro por si só.

Mas o tempo é bom professor. Em sete meses percebeu-se que estava errado. As filas aumentaram, os serviços se apertaram, e o povo, como sempre, sentiu primeiro e reagiu.

A sensatez, porém, teve vez. O administrador recuou. Voltou às oito horas. E nesse gesto, revelou-se o verdadeiro compromisso com a cidade. Porque mais digno do que acertar de primeira, é ter a humildade de reconhecer o erro e corrigi-lo.

O que fica é a lição: governar não é sobre apagar pegadas antigas, mas sobre entender que, às vezes, o caminho já estava meio trilhado. E que, sim, nem tudo estava errado.

(Marcos Bonilla – diretor e editor-chefe do Jornal Opinião)