CURTI, MAS NÃO AMEI
Tem dias em que a gente só viu. Simplesmente passou o olho, entendeu o recado, mas não se emocionou, não se indignou, nem salvou nos favoritos. Viu. Só isso.
Mas a plataforma quer mais. Quer saber se você curtiu. E aí está o problema.

Nas plataformas digitais do Facebook ou Instagram o botão é “curtir”. Não é apenas “vi”. Não é “respeito sua dor” ou “entendi sua revolta”. Só tem “curti”. E, cá entre nós, curtir, para os brasileiros, é outra coisa.
Você quer ser solidário e dizer: “eu vi, estou aqui, tá?”. Mas o único gesto possível é aquele dedinho levantado, sorridente, como quem diz “adorei!”.
Enquanto os americanos criaram a ferramenta pensando que o like era só um sinal de presença, nós demos à curtida um peso emocional. Curtir, para a gente, é sinônimo de gostar — e gostar muito. É quase um “tô junto”, um “arrasou”.
E no Instagram, então? A situação piora. Lá, o botão é um coração! Como se fosse uma jura de amor. Você só queria dizer que viu, mas no fim, parece que mandou flores. Aí vem o perigo. As mulheres ciumentas já chegam afiadas:
— “Você mandou um coraçãozinho pra fulana?”
E o pobre inocente tenta explicar:
— “Não mandei nada! Só cliquei pra dizer que vi…”
Precisávamos de um botão novo. Um “vi”. Simples, honesto, respeitoso. Porque nem tudo que a gente vê, a gente gosta. A vida, afinal, não é feita só de aplausos. Bom seria se a internet soubesse disso também.
Foto: pt.pngtree.com
(Marcos Bonilla – diretor e editor-chefe do Jornal Opinião)

