LEWIS HAMILTON A GLOBALIZAÇÃO, O MITO E O HOMEM
No GP da Hungria de Fórmula 1, em Budapeste (3/8), o heptacampeão mundial, Lewis Hamilton, acabou eliminado ainda no Q2 (fase em que se classificam os 10 mais rápidos) e largou na 12.ª posição, enquanto seu companheiro de Ferrari, Charles Leclerc, ficou com a pole position.
Ao final da disputa classificatória, o piloto britânico, decepcionado consigo mesmo, declarou: “Sou inútil, a Ferrari precisa trocar de piloto”.
Não! Definitivamente, Lewis não é um inútil! Sete vezes campeão mundial, considerado por muitos o segundo melhor de todos os tempos, atrás de seu ídolo Ayrton Senna, primeiro piloto negro da história da Fórmula 1, Hamilton é um mito nas pistas e um ícone fora delas, ativista dos movimentos antirracistas, dos direitos LGBTQIA+, das causas ambientais.
Sua reação à má fase em que se encontra reascende o debate sobre a saúde mental dos atletas de alto rendimento. A corrida de Budapeste teve um público, presencial, de 310 mil pessoas, a audiência global, pela TV, YouTube e plataformas digitais, foi estimada em 5 milhões. A “marca F1” obteve 825 milhões de seguidores nas redes sociais em 2024 (90 milhões a mais do ano anterior); a audiência acumulada da temporada beirou 2 bilhões de expectadores.

Até os mais geniais atletas, de vários esportes, podem ser acometidos de alta ansiedade, depressão e outros distúrbios, vitimados, sobretudo, pela brutal exposição ao redor do planeta – a Copa do Mundo do Catar 2022 e os Jogos Olímpicos de Paris 2024 foram acompanhados, cada um, por cerca de 5 bilhões de pessoas.
Na história recente, podemos destacar os casos do nadador americano Michael Phelps, recordista olímpico absoluto, com 28 medalhas (23 de ouro), que começou a sofrer com a depressão nos Jogos de Atenas 2004, que levou o super-atleta ao uso de álcool e jogos de azar.
A fenomenal ginasta americana, Simone Biles (também saudada como a segunda melhor de todos os tempos, atrás apenas da romena Nadia Comaneci), com dezenas de títulos mundiais, quatro medalhas de ouro e uma de bronze nas Olimpíadas do Rio 2016, se viu diante da ansiedade em Tóquio 2020, que a fez se retirar de algumas provas, após sofrer um bloqueio mental, conhecido como “twistie”.
A tenista japonesa Naomi Osaka, campeã de quatro Grand Slams (dois da Austrália e dois US Open), primeira asiática número 1 do mundo, desistiu de participar de Roland Garros, em 2021, para cuidar da saúde mental.
O surfista brasileiro Gabriel Medina tinha acabado de ser campeão mundial, em 2022, quando parou de competir para cuidar da depressão, o que nos leva a repensar que o idílico “viver a vida sobre as ondas” não é bem assim quando se trata de competições de alta performance.

A lista é extensa: Mike Tyson, Ian Thorpe, Iniesta, Ronaldo Fenômeno.
Deixei por último o enigmático episódio do maior Ás do volante, ele mesmo, Ayrton Senna. Quem tem 40+ anos de idade lembra bem daquele fatídico fim de semana em Ímola, no GP de San Marino, maio de 1994. Nos treinos classificatórios, o acidente do Rubinho Barrichello e a morte do Ratzenberger abalaram Senna – temos na memória as imagens do gênio, preocupadíssimo, com o olhar perdido, como uma premonição. O supercampeão, o heroi que carregava o orgulho brasileiro nos ombros, recém-saído da McLaren, estava sob pressão absurda para obter vitórias com sua nova Williams.Na cidade de Stevenage, subúrbio de Londres, o garoto Lewis Carl Davidson Hamilton, então com 9 anos, chorou a morte do ídolo, nos braços do pai, sr. Anthony, as mesmas lágrimas que derramamos, os brasileiros
Lewis se inspirou no mito Ayrton, se tornou mito do automobilismo também. Mas todos somos seres humanos, sujeitos a glórias e vulnerabilidades.


