Memórias: “Quaresmas modernos numa Pasárgada utópica“
“Estamos sempre tentando, errando, acreditando demais ou de menos…“
Por: Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagoga
Em meados da década de 80, meu irmão e eu nos mudamos para Ribeirão Preto, cidade ainda um tanto tímida.
Lá, dona Cida, professora de Português da “oitava série” me apresentou o senhor “Policarpo Quaresma”, figura feita de fé e teimosia.
Funcionário público do começo do século XX, personagem de Lima Barreto, acreditava que o Brasil poderia ser perfeito.
Para ele, bastava plantar a mandioca certa, falar a língua tupi, entregar seu coração a quem prometesse salvar tudo.
E, mesmo que cada gesto fosse visto como loucura, ele persistia.

Até que o país o esmagou e seus sonhos de utopia se desfizeram.
Trazendo a lição ao presente, os Quaresmas modernos não desapareceram.
Cada um de nós, de algum jeito, procura sua própria Pasárgada (outra lição da dona Cida) um lugar imaginário onde as promessas se cumprem, os problemas se resolvem e tudo parece caber no abraço de uma esperança.
Alguns acreditam em líderes, outros em soluções rápidas, mas todos compartilham a mesma ideia: que existe um canto perfeito onde o mundo se ajeita.
Mas o Brasil real não se curva a desejos isolados, não se entrega a mapas ou manuais de instruções.
É feito de solos pedregosos, de colheitas inesperadas, de gestos pequenos que somam aos poucos.
Ainda assim, os Quaresmas modernos continuam plantando, regando suas pequenas sementes e observando o que brota, mesmo sabendo que a colheita quase nunca será como sonharam.
E aí reside a verdadeira lição: a Pasárgada não é entregue de bandeja, nem o país se resolve em promessas fáceis.
Ela nasce do esforço de cada um, da atenção aos detalhes, da coragem de tentar e recomeçar.
Mesmo que os sonhos não se realizem por completo, é nesse processo que aprendemos a valorizar nossas pequenas conquistas e a inventar nossa própria utopia, em meio ao caos que chamamos Brasil.
Estamos sempre tentando, errando, acreditando demais ou de menos…
E, entre sonhos e tropeços, presumo que não é o país que nos faz felizes ou desiludidos e sim o jeito que escolhemos olhar para ele:
Com coragem, paciência e, acima de tudo, com a delicadeza de quem ainda se permite sonhar, mesmo sabendo que nada será perfeito.
E, se hoje me pego refletindo sobre sonhos, utopias e desencantos, devo isso à dona Cida, que, sem saber, plantou em mim a lição de que livros não são apenas histórias, são espelhos.
E que Policarpo, com toda sua teimosia, ainda sussurra entrelinhas sobre o Brasil e sobre nós mesmos.

