QUANDO A ECONOMIA ESTÁ ACIMA DA DEMOCRACIA
Na Câmara de Taquaritinga, a palavra dos vereadores passa de mão em mão e deixa o público sem saber quem votou o quê
Há coisas que só acontecem por aqui. Quando a gente conta para alguém de fora, vem a afirmação: “Você está exagerando”. Na Câmara de Taquaritinga, há apenas quatro microfones para 15 vereadores. O objeto de desejo é passado de mão em mão como se fosse um troféu de sessão.

A cena é digna de comédia. O vereador termina seu raciocínio, o público se prepara para ouvir a réplica, e lá vai o microfone, viajando de mesa em mesa, cumprindo seu destino de mensageiro oficial da palavra. Quem assiste pela internet chega a duvidar se está acompanhando uma reunião do Legislativo ou um sarau improvisado de karaokê.
Durante a votação, apenas quem segura o microfone tem o voto registrado com som. Os demais, coitados, votam no mudo. Para o povo que acompanha, fica a dúvida: foi “sim”, foi “não”?
Enquanto isso, a Câmara se orgulha de devolver recursos não utilizados ao Executivo. Bonito, claro. Mas talvez fosse melhor devolver o que sobra depois de garantir o básico: microfones suficientes para que a voz de cada vereador seja ouvida. Afinal, democracia sem voz é quase um teatro mudo.

Já houve um tempo em que cada vereador tinha seu próprio microfone. O que aconteceu com eles? Estão esquecidos em algum depósito empoeirado? Se estão com defeito, bastaria consertar.
Quem sabe um dia, ao ligar a sessão no Facebook, o cidadão tenha a surpresa de ouvir todos os vereadores, cada qual no seu microfone, sem precisar adivinhar votos ou falas.
Aí, sim, será um espetáculo digno de democracia – sem improvisos de karaokê.

