Cena do cotidiano: “SUA MAJESTADE, A PREGUIÇA. “
Por: Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagoga
Há dias em que a vida parece me dar pequenas parábolas disfarçadas de rotina.
No quintal, por exemplo, observo um casal de pombos em sua ousadia: escolheram como berço uma arandela de três centímetros. Três centímetros e três gravetos, nada mais.
Entre a pressa de querer existir logo e a preguiça de procurar um lugar melhor, eles improvisam um lar que desafia a lógica.
Depois, a tela do computador me oferece tentações: um bolo fofo, dourado, desses que parecem exalar perfume pela própria imagem.
Eu quase me lanço, mas o pensamento me intercepta antes da primeira tigela: e a pilha de louças que virá depois? A receita, assim, desanda antes mesmo de começar.

Também me lembro de que o corpo pede movimento. Preciso devolver-lhe o ritmo, reacender músculos que já cochilam.
Mas, para tanto, teria que reorganizar o relógio, encaixar horários, negociar com o tempo.
E aí a balança pende: corro para dar conta de tudo ou descanso para dar conta de mim?
Pode ser que o encanto da preguiça resida não na imobilidade absoluta, mas na interrogação que me faz hesitar.
Entre o fazer e o não fazer, entre o querer e o adiar, ela me ensina que a vida não é só urgência.
Às vezes, é também intervalo. E, beeemmm lá no fundo, começo a achar que a preguiça tem até um quê de sabedoria.
Ela me sopra ao ouvido que nem sempre é preciso conquistar o mundo num só dia, que existe valor em contemplar, em saborear devagar, em deixar o tempo passar sem culpa.
Começo a pensar que ter preguiça não é falta de vontade, mas excesso de delicadeza com a própria vida.
Ela não atrasa ninguém, só pede passagem, como quem diz: “Ei, me deixa ser a vírgula do seu dia”!
E vou além! Se a preguiça tivesse profissão, certamente seria consultora de prioridades.
Ela aparece sempre que eu decido fazer algo grandioso, só para lembrar que talvez seja melhor adiar para amanhã.
É quase uma “personal trainer” do ócio: insiste em me treinar para alongar a paciência, fortalecer o descanso e praticar o nada absoluto.
E, parando agora para pensar, até a pressa precisa de folga, até o tempo sabe cochilar e se preguiça fosse esporte olímpico, só por hoje, eu estaria no pódio, medalha no peito e nenhum arrependimento.

