NOSSO COMÉRCIO PEDE SOCORRO!
O diferencial que não cabe no carrinho virtual
Na Rua do Comércio, os manequins vestidos com as cores da estação, estão lá, esperando alguém que passe, olhe com calma e se permita entrar. Mas, na calçada, os passos apressados já não se voltam tanto para a vitrine: se voltam para a tela. Em dois toques, o produto está comprado. Amanhã chega na porta.

No comércio local, havia o tempo em que comprar uma camisa era também conversar com a balconista, ouvir um “ficou bem em você”, que aquecia o ego. Tinha até o cafezinho, um agrado simples que transformava o cliente em freguês. O “carrinho virtual” não pergunta como você está, não dá bom-dia.
É claro, a cidade sente. Cada clique um dinheiro que também vai embora, sem rodar aqui, sem pagar o pão, o lanche, o imposto que conserta a rua. É uma economia que sangra silenciosa como quem não percebe a torneira pingando até que o balde transborde.
Porém, ainda existe algo que o aplicativo não entrega: o olho no olho, a conversa, o sorriso. O cliente bem atendido, volta. A moça que é atendida com paciência conta para a vizinha. O rapaz que pode parcelar em dez vezes na loja física, deixa de comprar no Mercado Livre.
O comércio local não precisa competir com a internet, mas com a frieza dela. Às vezes, o diferencial está em um gesto pequeno, como pagar o tíquete da Área Azul de quem se deu ao trabalho de estacionar para prestigiar. Dois reais, que podem render muito mais do que qualquer promoção online.
Porque, no fim, a cidade é feita de gente. E gente gosta de ser bem tratada. Talvez o que um comerciante possa oferecer seja justamente a sensação de pertencimento: a certeza de que comprar ali não é só uma transação, é um pedaço da cidade que continua viva.
Foto: O Globo
Marcos Bonilla – Diretor/editor-chefe do Jornal Opinião
