“Os tormentos que a gente inventa”
Há dores que chegam de fora: inesperadas, inevitáveis, que caem sobre nós como tempestade
Mas há também aquelas que criamos sozinhos, pequenas inquietações que cultivamos no silêncio do pensamento e que florescem em forma de “tormentos voluntários”.
É curioso como o coração humano gosta de se distrair com ilusões.
Olha para o que falta, compara o que não tem, mede sua felicidade pela régua do vizinho.
Como se o brilho da vida estivesse sempre guardado em outro lugar, no bolso de outra pessoa, no sorriso que não é o nosso.

Mas a verdade é simples: nenhuma felicidade verdadeira nasce do que é passageiro.
O que se compra, se gasta. O que se mostra, se apaga. O que reluz, um dia perde o brilho.
E, ainda assim, a cada passo, insistimos em perseguir essas miragens, como se delas dependesse a paz da alma.
O Evangelho chama isso de tormentos criados por nós mesmos — tormentos que poderiam ser evitados.
O contentamento não é falta de ambição, mas abundância de visão: enxergar que já existe riqueza no pouco, serenidade na calma, alegria nas coisas simples.
Esse é o grande desafio: não viver como quem coleciona vazios, mas como quem descobre tesouros nos detalhes.
Porque a calma, essa calma que não depende do mundo, mas da alma , é a verdadeira felicidade que se pode experimentar aqui.
Deus nos fala nisso também. No convite diário de viver menos inquietos, menos comparativos, menos famintos de ilusões.
E mais plenos, mais gratos, mais leves.
A vida já é difícil por si mesma; não precisamos acrescentar tempestades fabricadas.
O segredo está em repousar no presente e deixar que o tempo se encarregue do resto.
E uma coisa é certa: entre a dor imposta pela vida e a que cultivamos por hábito, a mais cruel é sempre a dos tormentos que a gente inventa.

