“O Tempo que nos Sustenta”
Por: Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagoga
Há um silêncio pesado que paira sobre quem já entregou seus dias à construção desta cidade
Enquanto alguns recebem a promessa do sustento ainda antes do mês nascer, outros, os que já caminham mais lentamente, mas guardam em si a força da memória coletiva, aprendem a esperar.
E esperam. Os idosos, esses guardiões da história viva, são postos na fila da paciência, quando na verdade deveriam ser os primeiros a colher o fruto do respeito.
Muitos deles já se tornam hipervulneráveis: são corpos que exigem mais cuidados, corações que pedem amparo, vidas que não podem se dar ao luxo da demora.
Em outros cantos do mundo, o idoso é raiz e farol; é quem ensina com o silêncio e com o olhar.
Aqui, tantas vezes, são tratados como peso, quando deveriam ser celebrados como herança, exemplo e porto seguro.

Adiar o sustento de quem nos antecedeu é ferir a própria dignidade que nos cabe como sociedade.
Não se trata apenas de contas e repasses: trata-se da justiça que devemos ao tempo – o tempo que eles doaram e que agora nos sustenta.
E que o RPPS (IPREMT), como autarquia que guarda as promessas de uma vida inteira de trabalho, não seja reduzido a números frios em balanços postergados, mas recorde-se de sua missão maior: assegurar que cada aposentado receba não só o provento devido, mas o reconhecimento silencioso de toda uma cidade que ainda se ergue sobre os passos deles.
Para isso, é imprescindível que a Prefeitura cumpra seu dever inadiável de efetuar os repasses em dia.
Não é favor, não é gesto de benevolência: é obrigação legal e respeito humano.
Tudo o que se posterga contra os idosos é também um atraso moral de toda a sociedade.
E se, por descuido ou falta de zelo, os recursos mensais se mostrarem insuficientes, ainda que nunca devessem faltar, que se tenha a coragem de estabelecer a fila mais justa:
Aquela que olha nos olhos da hipervulnerabilidade e entende que justiça social não é palavra em papel, mas gesto vivo.
A gestão pública que se nega a enxergar essa ordem de prioridades esquece que governar é, acima de tudo, proteger os que já nos protegeram.

