Semear respeito, colher o respeitar

Em 2002, Lula foi eleito presidente, no primeiro mandato do republicano George W. Bush, nos EUA, que sucedia os 8 anos do democrata Bill Clinton, promovendo uma gestão de “direita”, o que causava expectativa quanto ao relacionamento com o “esquerdista” Lula.
Lembro-me que minha perspectiva pessoal era de que se dariam bem. Bush é de família milionária do Texas, herdeiro de um império econômico e político, filho de ex-presidente, mas era, também e fundamentalmente, um “cara simples”, na fala, nos modos, tipo um “peão-boiadeiro”, no caso, um “cowboy”; Lula também é um “cara simples” e tal. Bom, minha intuição apontava para um bom relacionamento entre os líderes.

Lula se encontrou com Bush, na Casa Branca, antes de assumir a Presidência do Brasil (2002); se reencontraram no ano seguinte e, em 2005, Lula o recebeu, na Granja do Torto, em Brasília, num churrasco com picanha, alcatra, cordeiro recheado; Bush retribuiu em 2007 e Lula foi o primeiro latino-americano recebido em Camp David, retiro de campo presidencial. Se deram muito bem – antes de deixar o poder, Bush telefonou a Lula e o convidou a visitar o Texas.

Em 2009, Lula se encontrou com Barack Obama, que postou no blog oficial da Casa Branca ser “grande admirador da liderança progressista do presidente Lula”; se reencontraram no G-20, em Londres, quando Obama apontou pro Lula e disse: “Esse é o cara!”. Lula também se encontrou com os ex-presidentes Jimmy Carter (2007), para falar da cooperação entre o programa Minha Casa Minha Vida e a Fundação Carter Center, e Clinton, por duas vezes (2011 e 2014), conversa sobre o papel após a presidência; e se reuniu com Joe Biden, também por duas vezes, em Washington e Nova York (2023), as relações foram cordiais.
A reeleição de Trump trouxe de volta a expectativa de como seria a relação com Lula; de novo, minha intuição contrariava o temor geral de que não se dariam bem. Em abril de 2024, antes mesmo da eleição americana, postei no Facebook: “Acho, só acho, que [Lula e Trump] se entenderão, para decepção dos que apostam no conflito e para o bem das duas maiores potências das Américas”.
Imediatamente à posse, Trump exibe uma tensão entre a Casa Branca e o Palácio do Planalto, que só se fez piorar: tarifaço, ataque à soberania do Judiciário brasileiro, perseguição a ministros do STF e autoridades, tudo incentivado pelo deputado Eduardo Bolsonaro e seu comparsa Figueiredo Neto, junto ao secretário de Estado Marco Rubio. O Trump mesmo nunca atacou o Lula, só se referiu ao ministro Moraes e STF; Lula, por sua vez, nunca abaixou a cabeça, se portando de maneira altiva, sem bajular nem menosprezar o colega.
Nesta terça-feira (23/9), os dois Chefes-de-Estado se cruzaram, pela primeira vez, na ONU, em Nova York, Lula entrando e Trump saindo do plenário, uma fugaz troca de palavras, que Trump resumiu assim: “Eu o vi, ele me viu, nos abraçamos e concordamos nos encontrar na semana que vem. Ele me parece um cara muito legal, ele gosta de mim e eu gostei dele, tivemos uma ótima química e isso é um bom sinal!”
Ainda é cedo, decerto, mas havemos de concordar que foi, sim, um bom sinal.
Fotos: Ricardo Stuckert/Reuters

