“Pedido, confissão e riso”

Por: Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagoga

Se eu pudesse dobrar a vida como quem dobra um lenço,

pediria ao tempo licença para brincar no último minuto.

Não um minuto qualquer: um minuto em que tudo é poesia e a vida acontece, sem pressa.

Pediria aos dias que não se disfarçassem de segunda-feira, que se vestissem de surpresa, de festa de rua, de samba na esquina.

Que me deixassem errar sem aviso prévio e rir alto de mim mesma quando tropeçar no final da linha.

Pediria que me devolvessem as pequenas tramoias: as lições que quase aprendi e as plantas que quase viveram.

Pediria o direito de colecionar instantes tão ordinários que, contados depois, soassem como lendas de família.

Pediria um espelho que não mentisse, mas que, por favor, me mostrasse com gentileza.

E, já que negociações são mais fáceis com humor:

Trocaria três promessas de dieta por uma promessa de perdão

Daria minha cota de paciência com caixas de papelão, por paciência com pessoas

Assinaria embaixo de qualquer contrato, desde que incluísse café grátis nas manhãs de chuva.

Que me deixassem, enfim, existir com aquela ambição pequena e feroz

de transformar um pedaço de pão e um verso ruim

numa vida inteira de sentido.

Em troca, prometo devolver em canções, em memórias e em abraços desajeitados, o que o tempo me concedeu.

O relógio, então, mediu um suspiro e disse: “feito, mas só por hoje.”

E ouso um último pedido: qual o meu propósito aqui e agora?

E ganho como resposta:

Seu propósito é bem simples: aqui e agora seja ser inteiro no minuto que você tem.