A Sinuca de Bico do Vereador

Na teoria, fiscalizar e legislar; na prática, apagar incêndios e ouvir reclamações

É incrível como a política municipal consegue estar sempre trocando de papel. O vereador fiscaliza, cria leis; o Executivo executa; o povo cobra. Parece simples, mas não é. O vereador recebe pedidos de lombada, de tapa-buraco, de lâmpada queimada. O Executivo, que deveria agir, engaveta leis e discursos. E o povo, cansado, não sabe mais a quem recorrer.

Enquanto isso, as leis, tantas e tantas, acumulam-se como livros empoeirados. Algumas, de tão improváveis, parecem escritas em mundos de ficção científica: seriam perfeitas, se ao menos fosse possível cumpri-las. Outras, até úteis, ficam lá, encostadas, porque o Executivo esquece de dar publicidade ou simplesmente não cobra sua aplicação.

E no meio desse labirinto, lá está o vereador, alvo fácil de todas as reclamações. Se diz que não é sua função, leva fama de incompetente, de preguiçoso, até de mal-educado. Se promete o que não pode, fica refém da própria palavra. É a famosa sinuca de bico.

A população, por sua vez, pede ao vereador, que pede ao Executivo, que ignora, e tudo recomeça. É um círculo vicioso em que a frustração só cresce. A imprensa, às vezes, ajuda a alimentar a confusão, cobrando o parlamentar por funções que, na prática, não lhe cabem.

Quem sabe, quando cada ente entender bem o seu papel, possamos ver vereadores dedicados ao que realmente lhes compete: fiscalizar os atos do Executivo. Só isso já seria suficiente. Até lá, seguimos observando aquilo que insiste em se repetir a cada legislatura.