Como ser mulher sem ser engolida por um padrão?
Por: Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagoga
Crescer foi acompanhar um desfile silencioso de mulheres que, cada uma à sua maneira, redesenhavam o feminino. Minhas referências surgiam em vozes potentes, como Gal Costa e Whitney Houston, ou em atrizes que misturavam fragilidade e poder, como Sonia Braga e Malu Mader. Apresentadoras marcaram gerações, enquanto modelos ditavam um ideal impossível estampado nas revistas. O feminino, ao mesmo tempo em que era mercadoria, era também vitrine de visibilidade.

Na política, Marta Suplicy e Luiza Erundina enfrentaram a resistência de um campo masculino. Não sem rótulos, não sem ataques, mas com coragem. O simples fato de estarem ali já rompia barreiras. Era fascinante perceber como o feminino podia ser múltiplo: irreverente, romântico, desafiador e contraditório.
Mas o feminino nunca foi homogêneo. Sempre esteve fragmentado e aprisionado a molduras rígidas: a obrigação de ser bonita, jovem, adequada. Até a transgressão acabava transformada em produto.
Quatro décadas depois, a pergunta permanece. Se antes os padrões vinham da TV, revistas e rádios, hoje se multiplicam nas telas dos celulares. Influenciadoras digitais moldam gostos, comportamentos e afetos, mas agora a cobrança é contínua e ininterrupta. O padrão não chega mais em capas mensais, mas em stories de 15 segundos, reforçando a sensação de que há um único jeito certo de existir.
O palco mudou, os rostos mudaram, mas a engrenagem segue a mesma: a mulher como vitrine. É nesse ponto que o feminismo deixa de ser apenas discurso: ele é sobrevivência.
Ser mulher é ter coragem de se reconhecer além das molduras, admirar sem se perder, inspirar-se sem se submeter, aprender sem copiar. É recusar a lógica dos padrões e habitar o próprio corpo sem pedir licença — como quem dança fora do compasso, mas encontra na própria música o sentido de existir.
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