Apicultor Adélfio Longhitano denuncia mortandade de abelhas causada por agrotóxicos na região

Uso de defensivos tem dizimado enxames e reduzido drasticamente a produção de mel; Embrapa alerta que impacto ameaça também a agricultura e o equilíbrio ambiental

O uso indiscriminado de agrotóxicos tem causado sérios prejuízos aos apicultores da região e representa uma ameaça direta ao meio ambiente. O apicultor Adélfio Longhitano relata que, das 70 caixas de abelhas que costumava manter, hoje restam apenas 15. Segundo ele, em apenas três dias, cinco novos enxames morreram completamente após o contato com áreas pulverizadas.

“É uma situação desesperadora. A gente investe tempo e cuidado, mas perde tudo de um dia para o outro. As abelhas chegam, trabalham um pouco e morrem. A colmeia fica vazia”, lamenta Longhitano ao dar entrevista ao jornalista Auro Ferreira, destacando que a mortandade das abelhas vem crescendo ano após ano.

Além de comprometer a produção de mel, os efeitos do uso de agrotóxicos, especialmente os que contêm fipronil e neonicotinoides, trazem riscos ainda maiores: a redução drástica da polinização natural, fundamental para diversas culturas agrícolas. Esses compostos químicos são altamente tóxicos e contaminam o pólen e o néctar, afetando não só as abelhas domésticas, mas também as espécies nativas.

O que diz a Embrapa

De acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), as abelhas são os principais agentes polinizadores de plantas nativas e cultivadas, sendo responsáveis por 40% a 90% da polinização das espécies vegetais, conforme o ecossistema. Essa função é essencial tanto para a manutenção da biodiversidade quanto para a produtividade agrícola.

A Embrapa alerta que as atividades humanas, como o desmatamento e o uso intensivo de defensivos agrícolas, têm colocado as abelhas em risco. Mesmo baixas concentrações de agrotóxicos podem causar alterações comportamentais que comprometem o funcionamento das colmeias e, consequentemente, os serviços ecossistêmicos prestados por elas.

Nos últimos anos, a instituição tem dado destaque aos efeitos subletais dos pesticidas, que não matam imediatamente, mas afetam o comportamento e a fisiologia das abelhas. “Essas alterações, muitas vezes imperceptíveis a olho nu, prejudicam a reprodução, a orientação e a comunicação dentro da colmeia, levando ao seu colapso”, explica nota técnica da Embrapa.

A pesquisa também aponta que ainda há falta de estudos específicos sobre o impacto dos agrotóxicos em abelhas nativas sem ferrão, comuns no Brasil. A instituição reforça a necessidade de protocolos de avaliação mais completos, que incluam análises morfológicas e celulares para detectar os danos provocados pelos contaminantes ambientais.

Uma ameaça ao equilíbrio natural

Especialistas alertam que a redução das populações de abelhas vai muito além do prejuízo aos apicultores. A ausência desses insetos compromete a produção de frutas, grãos e hortaliças, que dependem da polinização, e desequilibra ecossistemas inteiros.

Para os produtores e ambientalistas, é urgente uma maior fiscalização e conscientização sobre o uso de agrotóxicos, bem como o incentivo a práticas agrícolas mais sustentáveis.

“Sem as abelhas, não há mel, não há flores e, no futuro, pode não haver alimento”, resume Adélfio Longhitano, com preocupação.

Fonte e fotos: Auro Ferreira / Embrapa / Gazeta do Povo