Entre cartas e destinos

Por: Ana Lúcia Santaella Aiello

jogos que se jogam com cartas, outros com destinos.

O quatrilho, dizem, não admite traições, apenas disfarces. É um jogo que atravessa gerações — mudando de parceiros, mas não de truques.

Quatro personagens, quatro cartas na mesa. Dois casais, duas alianças, um tabuleiro de vida e esperança.

Tudo começa com a ilusão de que o jogo é simples: dividir a aposta, somar esforços, colher prosperidade.

Mas bastam alguns olhares trocados, uma piscadela fora de hora — e o baralho inteiro se embaralha sozinho.
Assim é o amor e, convenhamos, também assim é a vida.

Passado mais de um século, continuamos jogando o mesmo quatrilho: mudam os sotaques, as roupas, os endereços, mas a lógica segue a mesma.
Um finge que não percebe, outro finge que acredita — e, no meio da encenação, todos seguem apostando que, desta vez, será diferente.

O interessante é que o jogo agora se repete de outro jeito.
O cenário mudou, mas a essência permanece: muitos seguem embaralhando papéis em vez de cartas, buscando um passaporte em vez de um pedaço de terra.

O que antes eram apostas feitas com baralhos, agora transformaram-se em processos, documentos e filas, onde a esperança é depositada em cada folha assinada.

Os netos dos que cruzaram o oceano sonham em voltar.
Não por saudade, mas por descendência.

A mesa mudou, mas o jogo é o mesmo: a paciência virou trunfo, o carimbo é o novo coringa e as filas longas substituíram os dias de lavoura.

A Itália, aquela velha parceira de cartas, parece ter cansado das jogadas.
Cruza os braços, ajeita o lenço no pescoço e diz, com certo desdém:
*“Aspetta un po’, vediamo…”*¹

Enquanto isso, os descendentes, fiéis à tradição, continuam sonhando com o lance perfeito que lhes garantirá a cidadania e um copo de vinho no fim da partida.

Jogar com o improvável é aceitar que, assim como no amor e na vida, nem sempre as cartas estão sob nosso controle.
Os olhares trocados e as piscadelas fora de hora embaralham as certezas, colocando todos à mesa numa aposta silenciosa de que, talvez, desta vez, o destino seja diferente.

E, entre uma jogada e outra, a vida segue — meio italiana, meio brasileira, toda humana — tentando não deixar que a mesa vire.

Jogamos, ainda, com as cartas do passado e chamamos de futuro.
As cartas, os selos, as certidões são só o barulho do embaralhar.

Esse é o nosso paradoxo mais doce: descendentes de quem veio fugindo, agora querendo voltar correndo.
Jogamos com as mesmas cartas, mas mudamos de desejo.

O quatrilho segue, como a própria imigração: regras que mudam sem aviso, partidas que se repetem e a esperança que, silenciosa, sempre se reinventa.

Jogo e vida seguem no mesmo bordado, feitos de sorte, paciência, ironia e sonho.

E nós, herdeiros dessas histórias de partida e retorno, encaramos o consulado como quem olha pelo vidro do passado, sorrindo com a nostalgia de esperar um selo que talvez nunca nos pertença.

¹ Em tradução livre: “Espere um pouco, vamos ver…”.
Mas o que ela diz, de verdade, é: “Acalme-se, querido, quem sabe um dia.”
É a paciência travestida de poder — e o charme melancólico de quem sabe que, no fundo, tem a última carta do jogo.