Promessas não têm data
Por: Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagôga
Nós aprendemos a dar peso às datas.
Elas marcam começos, fins, reencontros, promessas de recomeço.
Mas, ao longo da vida, descobrimos que o tempo não tem compromisso conosco. Ele apenas segue.
E o que realmente nos define não é o que o calendário aponta, mas o que fazemos permanecer nas relações.
Uma data esquecida é apenas um lapso.
A quebra de uma palavra é um desvio de essência.
Quando prometemos algo, entregamos parte de nós ao outro.
Não há relógio que conserte o que se rompe quando a palavra não se cumpre.

Datas se escrevem com números — são convenções marcadas no tempo e podem ser guardadas num lembrete no celular.
A palavra, porém, é vínculo entre almas, ponte que atravessa o esquecimento e floresce mesmo quando o calendário se cala.
Exige presença, coerência e verdade.
Nós nos desculpamos por esquecimentos, mas raramente encontramos justificativa para a falta de compromisso.
E é nesse ponto que o tempo se torna irrelevante.
O que sustenta qualquer laço é a confiança — e confiança nasce da palavra mantida.
Porque a ausência num evento se explica, enquanto a ausência na palavra revela desalinho.
Não há data que substitua o gesto simples de cumprir o que se disse.
É nisso que se revela quem somos: não nos dias em que lembramos, mas nos momentos em que honramos o que prometemos.
O tempo perdoa o descuido, mas não devolve a confiança perdida.
Promessas não têm data, porque pertencem a outro tipo de tempo —
aquele em que o relógio não manda e onde a presença vale mais do que qualquer lembrança marcada.

