Entre o Bem e o Mal

Há quem insista em dividir o mundo entre mocinhos e bandidos — e talvez essa seja, no fundo, a forma mais antiga de tentar entender o caos. A operação policial que resultou em mais de uma centena de prisões e dezenas de mortes reacendeu esse velho enredo.

Para uns, foi uma chacina; para outros, uma vitória da lei sobre o crime. Entre esses dois extremos, fica o território cinzento onde repousa o bom senso, essa espécie em extinção.

Os números impressionam: cento e nove suspeitos, boa parte com histórico pesado.
Homicídios, tráfico, foragidos, armas longas e curtas. Não eram meninos perdidos na floresta — eram soldados de um exército paralelo que se acostumou a desafiar o Estado. E, quando o Estado reage, há quem se espante com o barulho.

Mas é guerra.
Não se vence com aplausos nem com discursos piedosos. Policiais também tombam.
Quatro deles morreram. Quatro famílias ficaram sem pai, sem filho, sem marido. A diferença é que, quando um policial morre, raramente há protestos. Não há passeata, nem faixa na avenida.

A operação foi um sucesso. Mas o sucesso de uma operação policial é o tipo de vitória que chega ferida, cansada, coberta de sangue. Porque, enquanto houver quem prefira a vida errada, a polícia continuará a atirar. É esse o seu papel – nos defender.

No fim, o certo sempre será torcer para o mocinho.
Porém, num país desigual, até o mocinho anda cansado — e o bandido, muitas vezes, nasceu sem chance de ser outra coisa. O bem venceu. E não é por motivos de desigualdade que iremos torcer para o mal.