ENTRE A CIVILIZAÇÃO E A BARBÁRIE

“Não é mais segurança pública, é guerra”.
Felipe Curi, secretário da Polícia Civil do RJ.

Autoridades cariocas explicaram que a operação de terça (28/10) foi para “combater a expansão territorial do Comando Vermelho”. Foram atos de guerra, mas a questão é: guerra de quem contra quem?

Vamos refletir.

O Comando Vermelho é a mais poderosa organização do RJ, não a única, têm-se o Terceiro Comando, os Amigos dos Amigos, “traficantes avulsos”, além das milícias.

ORIGEM DA MILÍCIA

Nos anos 1950, surge o Esquadrão da Morte, dirigido pelo detetive Milton Le Cocq, morto em 1964 pelo criminoso Cara de Cavalo, que acabou assassinado pelos ex-comandados do detetive, que fundaram o grupo Scuderie Le Cocq, que, graças à impunidade do regime militar, inspirou novos grupos justiceiros, consolidando o mote “bandido bom é bandido morto”. Na década de 1970, eclodiram dezenas de agrupamentos na Baixada Fluminense, que recebiam dinheiro de comerciantes para matar ladrões e assassinar desafetos. Nos anos 1990, na região de Rio das Pedras, um grupo passou a oferecer (impor) proteção também aos moradores e a incentivar lideranças a entrar na política, chamados, a partir de 2006, de “milícias”.

Os milicianos formaram um “braço político”, com vereadores e deputados estaduais, e um “braço armado”, de policiais e ex-policiais, dominaram territórios, expandiram os “negócios” para serviços de internet, TV a cabo, gás de cozinha, tráfico de drogas e venda de armas, e avançaram na política, elegendo deputados federais e prefeitos e ocupando cargos nos gabinetes de parlamentares e órgãos de segurança.

Hoje, a Região Metropolitana do Rio é dividida entre Milícia e Comando Vermelho.

FARIA LIMA E COMPLEXO DO ALEMÃO

Em agosto, sem a adesão do governador Tarcísio de Freitas, uma ação integrada da Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público Federal e Ministério Público de São Paulo invadiu escritórios-sedes de alguns dos principais bancos e instituições financeiras do País, na Avenida Faria Lima, zona sul da Capital, suspeitos de lavar dinheiro da organização Primeiro Comando da Capital (PCC) e outros ilícitos, que chegam ao astronômico valor de R$ 70 bilhões. Entre as 42 empresas investigadas, estão Reag, Banco Genial, Trustee.

Numa ação de inteligência, embasada no Direito, os agentes cumpriram mandados, efetuaram prisões, conseguiram bloquear R$ 1,2 bilhão, ferindo profundamente a organização – sem disparar um tiro e sem matar ninguém!

Na terça-feira, o governador carioca Cláudio Castro deflagrou uma megaoperação, muito diferente da ocorrida em São Paulo: em vez de articular uma equipe multiprofissional, com PF, Ministério Público, Receita Federal, deixou o comando exclusivamente ao Batalhão de Operações Especiais (BOPE) e à polícia local; em vez de focar o centro econômico-financeiro, com ações de inteligência, optou por invadir as favelas do Complexo do Alemão, com ações de guerra.

Resultado: um derramamento de sangue, 120 mortes, sendo quatro policiais – e danos mínimos ao Comando Vermelho, que já “substituiu” os mortos e irá recompor seu arsenal em breve.

CONCLUSÃO

A realidade do crime não dá espaço para interpretações no maniqueismo “bem versus mal”; é preciso combater a criminalidade com eficiência, eficácia e Justiça. A ação multipolicial no bairro “chique” da Capital paulista foi exemplo de civilização: a mão forte da Estado, sob a égide do Direito, cumprindo seu papel, de modo eficaz – um orgulho não só para os paulistas, mas também para os brasileiros.

Já a operação do Bope na favela da capital fluminense foi um desastre, remete à barbárie: a mão violenta de um grupo político (que se apoderou do Estado), agindo fora da Lei, de forma ineficiente e “seletiva”, haja vista que o próprio governador reforçou se tratar de “guerra contra o Comando Vermelho”, sem nenhuma menção às milícias – uma vergonha para o mundo civilizado.