ENTRE O POÉTICO E O CÔMICO, UM OLHAR PARA O ÚNICO
Por Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagoga
Quando o sentido se revela, até o gesto mais simples se transforma em segredo raro — e aquilo que só eu posso criar se torna universo inteiro, feito de silêncio e memória.
O sentido de que falo não é o da bússola, sempre sério, apontando ao norte como quem sabe de tudo; é o do instante breve, o de quem constrói castelos de areia sabendo que as ondas virão, mas ainda assim celebra a beleza do momento, rindo do efêmero e transformando o passageiro numa pequena festa.
É um sentido que não se explica, mas se sente na pele, como o cheiro da chuva em terra seca ou o café coado na manhã de domingo.

Uma especialidade invisível, quase ridícula, como guardar pedras no bolso para lembrar o caminho de volta.
Cecília Meireles diria que cada um é uma harpa solitária, vibrando sons que ninguém mais ouviu.
Drummond, com sua pedra no meio do caminho, tropeçaria de propósito só para compor um novo verso sobre o tropeço.
Quem sabe eu, com minha mania de ver graça no trivial, não faça do “sentido” uma piada interna entre mim e o universo?
Se não rir de mim mesma, quem rirá?
Há uma delicadeza secreta em olhar para o comum e enxergar possibilidades — em descobrir a beleza de reinventar o cotidiano, dando ao banal o brilho inesperado do extraordinário.
O especial não precisa de plateia lotada, apenas de um olhar curioso.
O mundo está cheio de criações esquecidas, sonhos rabiscados e caminhos abertos por quem ousou inovar.
E se tiver sentido, mesmo que só para mim, já vale: é meu segredo, meu verso, meu riso solto no vento.
E quando o dia se despede, resta o eco daquilo que só eu enxerguei: o riso que nasceu do acaso, o segredo guardado entre pedras e versos.
No tempo das coisas, encontro sentido em aceitar o mistério do instante, transformando o trivial em maravilha — e lançando um olhar curioso, como promessa de eternidade, para o que parecia passageiro.

