O talento que atravessa a divisa

Há um velho ditado que diz: “Santo de casa não faz milagre.” Em Taquaritinga, parece que a frase virou lema, desses que a gente repete tanto que até esquece o quanto é triste. O tempo passa, os talentos partem.

É curioso: nossa cidade é um celeiro de gente boa. Na música, nas artes, na saúde, na cultura, na educação. Há nomes que poderiam brilhar em qualquer lugar. Mas preferem brilhar aqui. Só que, às vezes, a porta se fecha não por falta de competência, mas por excesso de política.

Veja o caso da enfermeira Ana Lúcia Sales — exemplo de dedicação e competência na área de urgência e emergência. Comandou a UPA com excelência, por anos, no entanto, foi empurrada para o canto, como se talento tivesse prazo de validade.

Ironia das ironias: Monte Alto enxergou o que Taquaritinga ignorou. Lá, a prefeita Maria Helena Rettondini não apenas a contratou, mas a valorizou — como diretora do Pronto Socorro.

Aconteceu com Thiago Duarte, ex-secretário de Cultura e Turismo, agora à frente da Cultura montealtense. E nós, seguimos importando atrações de fora, pagando cachês que viajam junto com os artistas. A ACIT, que vive pedindo para gastarmos aqui, fez isso. Como cobrar que os taquaritinguenses gastem aqui, se até nos eventos quem se apresenta é “de lá”?

A verdade é simples: talento desprezado não morre, muda de endereço. E cada vez que isso acontece, Taquaritinga perde um pouco de si, perde brilho, perde identidade, perde oportunidade.

Santo de casa faz milagre, sim. Se continuarmos de costas para o que é nosso, o que é bom vai continuar cruzando a divisa, e levando com ele um pedaço do que poderíamos ter sido.