O Criador diante da criatura

Por Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagoga

Há um instante inaugural em que o criador estende as mãos para o vazio, e o vazio, dócil ou inquieto, estende as mãos de volta. Nesse encontro, nasce a criatura, uma forma que respira mesmo quando feita de fantasia, palavra, cor, gesto ou silêncio. E, desde esse começo, já se percebe o segredo: o criador pensa estar moldando algo, mas é a criatura que começa a moldá-lo por dentro.

Criar nunca é um gesto solitário. É um pacto. É claro que a criatura carrega fragmentos do criador, mas carrega também tudo o que ele não sabia possuir. Surge como uma imagem indisciplinada, que insiste em revelar ângulos que o criador tenta esconder. Ela devolve versões do seu autor que não estavam previstas no rascunho inicial, iluminando cantos internos que há muito dormiam.

A criatura olha para o criador com uma espécie de ternura insolente, como quem diz sem palavras: “Eu vim de você, mas não sou só você.” Nesse jogo, ambos se observam. A criatura começa a ganhar forma própria, respira com outro ritmo, caminha em direção ao que o criador não controla por completo. E é nesse encontro imprevisível que surge a revelação: o criador se revê no que inventa, porém vê também o que nunca ousou admitir.

Há quem suponha que o criador governa plenamente sua criação, como se cada traço fosse obediência. A criatura, no entanto, prefere negociar suas formas. Desafia, provoca, rearranja intenções, como se testasse a coragem de quem a concebeu. E, enquanto o criador esforça-se para dar-lhe vida, descobre-se sendo desfeito e refeito, não por imposição, mas por contágio.

A criatura guarda um humor próprio, quase brincalhão, capaz de devolver ao criador suas contradições sem espanto. Mostra-lhe que a rigidez pode ser afrouxada, que certos medos podem ser desarmados, que a imaginação é mais vasta do que o rascunho sugere. Ao confrontar sua criação, o criador acaba encontrando versões inéditas de si mesmo, mais flexíveis, mais inteiras, mais sensíveis à própria transformação.

Enquanto a criatura nasce do gesto criativo, o criador renasce ao encará-la. Como num reflexo pulsante, um revela o outro e nenhum permanece igual. A obra, produzida para ganhar o mundo, devolve ao seu autor a chance de rasurar seus próprios contornos internos, com uma honestidade que nenhum espelho comum alcança.

E quando a criatura finalmente desfila diante do mundo, é como se cruzasse a avenida em noite de carnaval: reluzente, exuberante, vestida de sonhos e cores que o criador jamais ousou imaginar. O criador, extasiado, vê sua criação brilhar, encantando multidões com alegria e beleza. Nesse instante, unidos pelo samba da criação, seguem eternamente entrelaçados celebrando o milagre de existir e encantar.O Criador diante da criatura.