Erro em prescrição leva à morte de criança em hospital de Manaus

Uso incorreto de adrenalina aplicado por via intravenosa desencadeou reação fatal e levou investigação a tratar o caso como homicídio doloso

A morte do menino Benício Xavier, de 6 anos, após receber adrenalina de forma inadequada em um hospital particular de Manaus, reacendeu o debate sobre segurança em procedimentos pediátricos e responsabilidade profissional na área da saúde. Documentos internos do Hospital Santa Júlia e depoimentos colhidos pela Polícia Civil apontam que a prescrição equivocada da médica Juliana Brasil Santos foi o ponto central da tragédia.

Prescrição reconhecida como errada

De acordo com um relatório encaminhado pelo hospital às autoridades, a médica admitiu ter cometido um erro ao registrar a administração de adrenalina por via intravenosa. Ela afirma ter orientado verbalmente outra via, mas essa informação não foi registrada no prontuário, documento que guia obrigatoriamente a equipe de enfermagem.

A UTI Pediátrica constatou que a criança chegou ao setor após a “administração indevida de adrenalina na veia”, apresentando aceleração intensa dos batimentos, palidez repentina, falta de ar e sintomas compatíveis com intoxicação por substâncias que afetam o sistema nervoso.

Depoimento da técnica de enfermagem

A técnica de enfermagem Raiza Bentes Paiva, responsável por aplicar o medicamento, disse que seguiu exatamente o que constava na prescrição. Ela relatou que estava sozinha na ala no momento do procedimento e que não tem autorização para modificar diretrizes médicas registradas.

Segundo a profissional, tanto ela quanto a mãe de Benício questionaram a via intravenosa, já que o menino nunca havia recebido adrenalina dessa forma. Raiza mostrou o prontuário à mãe, que confirmava a orientação: três doses sem diluição, com intervalo de 30 minutos — sem indicação de nebulização.

Logo após a aplicação, o menino apresentou piora abrupta, dizendo que sentia o “coração queimando”, além de ficar pálido e ter dificuldade respiratória. A técnica correu para chamar a médica, que, segundo ela, demorou a chegar ao leito.

Quando retornou, Juliana teria apenas observado a situação e insistido que havia orientado nebulização — algo que, de acordo com a técnica, não aparecia no registro oficial.

Investigação trata caso como homicídio doloso

O delegado Marcelo Martins, responsável pela apuração, afirma que Benício morreu por overdose de adrenalina. Com base nos documentos e depoimentos, ele classificou a conduta como homicídio doloso qualificado, alegando que a médica assumiu o risco ao prescrever a via inadequada.

A médica e a técnica de enfermagem prestaram depoimento na delegacia. A investigação continua, e o hospital afirmou que está colaborando com as autoridades.