A Farra dos Dados
A saga infinita das ligações que nunca pedimos
Ninguém aguenta mais receber ligações telefônicas indesejadas. É como se o celular tivesse virado uma porta escancarada para desconhecidos oferecendo o que a gente não pediu. Confesso: eu já cansei.
Quando me aposentei, começou a enxurrada. Mal tive tempo de comemorar e trim-trim: “Senhor, temos aqui uma oferta imperdível”. Imperdível era a minha paciência, que se esvaía ligação após ligação. E eu ficava ali, encafifado: como diabos os bancos descobriram meu número?

“Tiraram do teu cadastro do Meu INSS”, disse um amigo. Fiquei incrédulo. Como pode um órgão governamental, que deveria proteger nossos dados, desrespeitar a LGPD assim, na cara dura? Mas depois do escândalo dos descontos indevidos, percebi que tudo era possível.
Resolvi o problema na marra: entrei no portal do Meu INSS e arranquei meu número de lá. E por um breve período, vivi uma paz telefônica. Mas alegria de brasileiro dura pouco. Bastou eu abrir uma empresa, o Jornal Opinião, e adivinha? As chamadas ressurgiram.
Agora eram bancos oferecendo empréstimos empresariais. E devo admitir: a vontade que dá é aceitar todos os empréstimos, assinar sorrindo e depois sumir no mapa. Outra vez a pergunta se impõe: como descobriram meu número?
E aqui, a resposta não precisava de bola de cristal. Tudo apontava para a Junta Comercial — mais um órgão que deveria zelar pelos nossos dados e, no entanto, não o faz. E lá seguimos nós, desligando, bloqueando, suspirando. A pergunta é: quando que o governo vai nos proteger dessas ofertas irresistíveis que ninguém pediu?
Foto: Notícias Concursos
