Teoria das Rotas e Outras Lógicas

Por: Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagoga

Ainda há quem debata, entre telas e atalhos digitais, um certo enunciado lançado por aí, daqueles que parecem simples na superfície, mas que, quando colocados sob luz, revelam falhas de cálculo. Eu observo o fenômeno como quem abre um livro antigo de raciocínio lógico: devagar, com ironia leve, deixando que o sentido se revele por si.

A premissa implícita seria algo como: determinadas mãos não serviriam ao volante. Logo…

O pensamento deveria seguir uma linha reta. Mas tropeça. Escapa por tangentes. Perde-se em becos onde a própria matemática se recusa a entrar. Há hipóteses que, quando testadas no cotidiano, se desfazem como giz molhado.

Basta contemplar as manhãs: há quem conduza crianças, sonhos, compromissos, afetos, tudo isso antes mesmo do sol acertar sua primeira fração no céu. Há quem costure horários com a precisão de uma fórmula elegante, dessas que dispensam explicação. Há também quem navegue entre avenidas como quem resolve problemas silenciosos, somando coragem ao cansaço e ainda encontrando espaço para uma ternura inesperada.

Se existisse uma lógica por trás da tal afirmação que circula, ela deveria se sustentar nas ruas, mas a paisagem a contradiz. A cada curva, a cada farol, a cada gesto, o enunciado se demonstra frágil. Variável sem valor. Equação que não fecha.

E enquanto alguns se esforçam para provar ou negar a tese, a própria estrada ensina outra coisa. Ela não pergunta quem dirige. Não exige assinaturas. Não distribui medalhas. Apenas acolhe quem passa e cada pessoa revela, no modo de avançar, o tipo de cálculo interno que carrega.

As diferenças entre uns e outros (homens e mulheres) não se medem em metros por segundo, nem em manobras, nem em estatísticas que tentam caber em frases curtas. Elas aparecem em sutilezas: no cuidado, na intuição, no modo como cada uma lida com os desvios que a vida impõe.

E isso, por si só, desmonta qualquer tentativa de reduzir comportamentos a rótulos herdados de um passado que insiste em fazer sombra.

Assim, a tal fala que muito repercutiu se fez como problema mal formulado, pois a vida segue, paciente, resolvendo-se por mãos diversas que guiam, por rotas que se multiplicam e por caminhos que se cruzam sem pedir licença às velhas certezas.

 A lógica mais simples prevalece: alguns pensamentos, quando expostos ao movimento da vida, revelam-se apenas ruídos de quem ainda não aprendeu a somar e desconhecem que os cálculos mais autênticos não cabem em máximas soltas, mas se desenvolvem por dentro, longe das fórmulas prontas que se dissipam no ar.