Quando o palco se confunde com o palanque
Entre a voz do artista e o silêncio da ideologia
Há momentos em que o palco, esse espaço sagrado da arte, começa a ranger sob o peso de algo que não lhe pertence. Não é o som desafinado, nem a luz mal posicionada. É a ideologia, tentando disputar protagonismo com aquilo que deveria ser apenas expressão artística.

Na madrugada silenciosa, um cantor consagrado anuncia sua insatisfação. Não com a música, não com o público, mas com a presença institucional de representantes do governo legitimamente eleito em um evento que, por natureza, é oficial.
O curioso é que televisão não é trincheira, é concessão pública. Não nasce de afinidade política, mas de normas, leis e institucionalidade. Um canal de alcance nacional não escolhe quem convidar como quem escolhe repertório de show.
É claro: todo artista tem direito à opinião, ao posicionamento, ao desacordo. Isso é saudável. O que soa estranho é transformar um contrato artístico em instrumento de veto institucional.
Há também a tentativa de falar em nome de quem construiu a história da emissora. Mas quem conheceu de perto aquele comunicador sabia: ele entendia que televisão não é palanque ideológico, é serviço público com responsabilidade social.

O artista não existe no vácuo. Existe porque há público, diverso, plural, contraditório. Colocar convicções pessoais acima desse pacto invisível é correr o risco de cantar sozinho, mesmo diante de uma plateia cheia.
No fim das contas, a democracia segue seu curso, os governos passam, as concessões permanecem — e a arte, quando fiel à sua essência, sobrevive a tudo isso. Como dizia Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Eu pergunto a você onde vai se esconder, da enorme euforia”.
Fonte: jornalista Leila Cordeiro

