Reflexões de Dezembro
Por: Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagoga
Dezembro se despede delicadamente, como quem não quer perturbar o sono da casa. As luzes de Natal piscam no jardim e no calendário resta uma única folha, enquanto o tempo parece passar silencioso. O ar carrega um cansaço suave, daquele tipo que não requer atenção, apenas acolhe e pede uma cadeira confortável.
Em meio às confraternizações, sobra um intervalo especial onde a alegria se enfeita e a saudade aproveita para puxar conversa. Não há tristeza, mas sim uma pausa sensível, um suspiro gostoso antes de virar a página, sabendo que o livro da vida continua.
O ano que termina deixa bilhetes espalhados pela memória; alguns de gratidão, outros de desculpas, outros ainda lembrando que certas quedas me ensinaram mais do que planos bem-feitos.

Já as promessas do ano novo começam a se ajeitar de maneira discreta, sem alarde ou barulho de fogos. Não batem à minha porta, apenas encostam. São vontades pequenas, mas persistentes.
Entre panetones e abraços longos, o coração faz inventário e percebe que nem tudo precisa ser levado para o futuro. Há espaço para deixar pra trás o que não serve mais e acolher apenas o essencial.
Esse novo ciclo que se anuncia não me inspira euforia utópica ou dias grandiosos. Apenas o gesto íntimo de ajustar os passos ao meu próprio ritmo, aceitando que a vida não segue uma linha reta, mas ainda assim encontra seus caminhos. Que o próximo trecho pode ser percorrido com menos pressa e mais presença, permitindo que eu sorria com os imprevistos e cuide bem do que certamente florescerá.
Nessa espera serena, a gentileza das pequenas ações se torna ainda mais importante: tomar um café sem pressa, enviar uma mensagem inesperada àquela amiga de longa data ou simplesmente olhar pela janela e ser grata por tudo que já passou.
Dezembro já se despede deixando em mim o aroma das memórias e a luz delicada das esperanças que cultivo. Nos movimentos pequenos do meu dia, nos silêncios que abraço e nas promessas que faço a mim mesma, encontro sementes para o tempo que virá.
Meu coração, mais leve, acolhe o mistério do novo ano que se aproxima e reconhece que a verdadeira celebração consiste em aceitar e recomeçar. Ao virar a página, desejo enxergar fraternidade nos entremeios, consolo nas despedidas e lição até no vazio.
E nesse compasso discreto, desejo mais que tudo me reinventar, abrir espaço para o essencial e renovar a fé nos caminhos que a vida propõe.

