“Ele não conseguiu sair do vício”: apostas online deixam rastro de dor e endividamento

Relato de auditora do TCE chama atenção para efeitos silenciosos do vício em jogos virtuais

O crescimento acelerado das apostas online no Brasil voltou a ser questionado após o relato público de uma auditora do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA), que perdeu o irmão em um contexto associado ao vício em jogos virtuais. O episódio trouxe à tona os efeitos invisíveis desse mercado bilionário sobre a saúde mental, o endividamento e a vida familiar de milhares de brasileiros.

A auditora Juliana Prates usou as redes sociais para relatar o impacto pessoal da morte de Otacílio Prates Neto, também servidor do TCE. Segundo ela, o irmão enfrentava um quadro severo de sofrimento psíquico, que se agravou ao longo do último ano com o envolvimento em plataformas de apostas, prática cada vez mais difundida no país.

De acordo com o relato, após um período de afastamento médico e tentativa de retomada da rotina profissional, Otacílio acabou entrando em um ciclo marcado por apostas frequentes, dívidas e isolamento emocional. A combinação desses fatores, segundo a família, teve consequências irreversíveis.

A manifestação de Juliana vai além do luto pessoal e levanta um alerta coletivo. Para ela, o avanço das bets ocorre em um cenário de publicidade massiva, acesso facilitado ao crédito e baixa percepção de risco, o que contribui para a banalização de um problema que, segundo especialistas, deve ser tratado como questão de saúde pública.

Estudos recentes reforçam essa avaliação. Levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) aponta que os impactos econômicos e sanitários associados às apostas chegam a dezenas de bilhões de reais por ano, além de colocar milhões de brasileiros em situação de vulnerabilidade emocional e financeira.

O caso também repercute no campo político. Tramita atualmente no Senado um projeto de lei que propõe a proibição dos jogos online, iniciativa que ganha força diante de relatos como esse. Parlamentares e especialistas defendem maior regulação, controle da publicidade e ações preventivas, especialmente voltadas a adultos economicamente ativos, grupo considerado de alto risco.

Ao tornar pública sua experiência, Juliana afirma que o objetivo é evitar que outras famílias enfrentem a mesma dor. “É preciso discutir limites, responsabilidade institucional e acolhimento psicológico para quem já está adoecido”, defende.

Fonte: Jornal do Povo; Sindilojas; Brasil de Fato; CNPL.org