Nada essencial precisa de neon
Por: Ana Lúcia Santaella Aiello – advogada e pedagoga
Nada essencial precisa de neon. O que realmente sustenta uma cidade aprende a existir na penumbra, longe dos holofotes políticos e dos anúncios luminosos da falsa diplomacia. Quando a lei apaga a música ao vivo e recolhe as mesas das calçadas, o silêncio não é apenas ausência de som: é o reflexo de uma tentativa de controlar o que pulsa fora do campo visual, de domesticar o improviso que faz parte da vida urbana.
O neon, sempre chamativo, tenta se justificar ao vazio deixado pela proibição. As ruas, antes vivas com conversas e acordes, agora passam a cintilar de forma artificial, como se isso pudesse substituir o encontro. Mas o essencial nunca dependeu do excesso de claridade. O que importa sobrevive mesmo quando se decide apagar as vozes e recolher os gestos espontâneos.
A cidade, ainda mais silenciosa, revela um novo tipo de ausência: não a ausência do luxo, mas a do cotidiano partilhado. O trabalhador que servia mesas ao som de um violão, o músico que fazia da noite seu sustento, o ambulante que contava com o movimento das calçadas; todos passam a habitar um espaço onde o brilho não se converte em pão.
O silêncio, antes poético, torna-se econômico. E a economia, privada de encontros, aprende a contar novas perdas em vez de sonoras notas musicais.

A desigualdade se revela também na distribuição do silêncio, na ausência de vida, de expressão e de convivência. Enquanto alguns podem se refugiar em ambientes privados, mantendo algum grau de convivência e lazer, outros perdem o pouco espaço público que tinham para celebrar a vida, encontrar amigos, trabalhar ou simplesmente existir socialmente.
O neon, nesse contexto, vira distração: dramatiza o que foi perdido, simplifica o que é complexo. A contenção, agora institucionalizada, cobra juros altos de quem já vivia na escassez.
Nossa cidade, vista de longe, pisca como máquina de fliperama, mas de perto revela calçadas vazias, ruas esburacadas, ausência de comunicação.
A proibição, vestida de ordem, apaga nuances e apressa despedidas. O artista, agora sem palco, carrega seu instrumento para casa; o garçom, sem mesas na calçada, recolhe também sonhos de gorjetas e conversas. O comércio local, privado do fluxo de gente, aprende que nem todo brilho é prosperidade.
O essencial, esse sim, resiste: segue atuando fora do campo visual, sustentando o invisível, esperando que alguém ainda saiba enxergar sem neon, mesmo quando as regras tentam ofuscar.
Toda cidade é feita de encontros – mesmo quando a lei insiste em separá-los.

