Titinho Libanore: 66 anos de comércio e histórias

Desde 1960, o comércio que vende de uma agulha a um acordeom virou ponto de encontro, memória viva e personagem da história de Taquaritinga

Em Taquaritinga, existe um lugar onde o relógio parece andar mais devagar e a conversa vale tanto quanto a mercadoria. Desde 1960, o comércio de Ângelo Celso Sargi, ou simplesmente, “Titinho Libanore” mantém as portas abertas no mesmo endereço, com o mesmo espírito: ter tudo o que o cliente precisa — e até o que ele nem sabia que precisava.

Ali, como dizem os fregueses, encontra-se “de uma agulha até um acordeom”, definição que virou quase um slogan informal da loja. O estoque cresceu aos poucos, sempre a partir de um princípio simples: se alguém pedia, Titinho dava um jeito de arrumar.

Um comércio que nasceu do trabalho e da estrada

Antes de se firmar em Taquaritinga, Titinho rodou o interior, trabalhando com transporte e venda de batatas. Foi dessa vivência que nasceu o olhar atento para o comércio e para as necessidades das pessoas.

Quando comprou o ponto do irmão, em 1960, começou pequeno — mas nunca parou de aumentar o estoque. “O homem vai aumentando cada vez mais”, define um dos entrevistados, resumindo décadas de dedicação diária.

Dinheiro vivo, confiança e palavra

Em tempos de Pix, cartões e maquininhas, o comércio do Titinho segue firme apenas no dinheiro. Nada de cartão. Nada de tecnologia. O sistema é outro: confiança.

Há casos em que o cliente leva a mercadoria, promete pagar depois — e paga. Outras vezes, Titinho sequer lembra o valor exato. Ele confia mais nas pessoas do que nos números, contam familiares e amigos.

Histórias que viraram lenda

Se o comércio é famoso, as histórias são ainda mais. Quem convive com Titinho garante: ele é brincalhão, gozador e dono de uma memória cheia de causos.

Entre eles, um episódio contado por Márcia Zucchi Libanore, casada com o primo de Titinho, Nei Libanore. Em uma pescaria antiga, quando ainda se fazia pão de forma artesanal no acampamento, Titinho colocou um chumbinho dentro da bolinha de massa que servia para medir o ponto do pão. A bolinha nunca subia — e o pão nunca ficava “pronto”. A história virou folclore familiar e até foi parar em livro escrito pelos colaboradores Antônio Fernando Almeida Curti, o Ico Curti, Zita Mendonça, Nilton Morselli e Chico Rodrigues.

Outro caso famoso envolve futebol: Titinho teria soltado um porco no campo em um dia de jogo no Estádio Adail Nunes da Silva, o Taquarão, provocando torcedores rivais e ajudando a eternizar a associação do Palmeiras com o mascote. Provocação típica de Corintiano roxo, que sempre levou a vida com humor.

Mais que uma loja, um ponto de encontro

O comércio também funciona como ponto de encontro da cidade. Pessoas passam para comprar, mas ficam para conversar. Titinho sabe preços “de cabeça”, inventa valores na hora e seu maior prazer parece que é dizer: tenho, quando alguém procura algo.

Mesmo com a idade avançada — perto dos 90 anos, que serão completados em abril deste ano, ele segue ativo, dirige, pesca com amigos e abre e fecha diariamente a loja.

Uma figura folclórica de Taquaritinga

Sem filhos, com sobrinhos, primos e muitos amigos, Titinho construiu algo raro: um patrimônio afetivo. Seu comércio não é apenas um lugar de compra e venda, mas um arquivo vivo da cidade, onde cada prateleira guarda uma história e cada conversa rende uma gargalhada.

Em Taquaritinga, falar do comércio do Titinho é falar de memória, confiança e simplicidade. Um lugar onde o passado continua presente — e onde sempre se encontra alguma coisa, nem que seja uma boa história para contar.