“A JARDINEIRA NÃO TEM DONO. É DO POVO”
Augusto Nunes critica a ganância, relembra a origem do bloco e defende um Carnaval popular, simples e sem exploração financeira

Em entrevista concedida ao programa “Giro Massa”, da Rádio Massa, o jornalista Augusto Nunes, atualmente na Revista Oeste, fez um contundente e emocionado relato sobre o Carnaval de Taquaritinga e a criação do bloco Jardineira da Tarde, manifestação que se tornou um dos maiores eventos carnavalescos de rua do Brasil, proporcionalmente à população da cidade.

Falando ao jornalista Auro Ferreira, Augusto foi direto ao ponto ao relembrar a gênese do projeto e criticar tentativas de apropriação, oficialização e exploração financeira de uma festa que, segundo ele, “só existe porque o povo quis”. “Ninguém é dono de festa popular. A Jardineira é do povo”, afirmou.
A origem: uma ideia simples que virou tradição

A Jardineira da Tarde nasceu de forma quase despretensiosa. Segundo Augusto, a ideia surgiu em 2008, em uma conversa familiar com sua filha, a jornalista Branca Nunes, após ela participar de um bloco de rua no Rio de Janeiro. A pergunta era simples: por que não criar algo parecido em Taquaritinga, aberto a todos, sem regras, sem distinções e sem interesses comerciais?

Assim, em 2009, o bloco saiu pela primeira vez às ruas, à tarde, respeitando o calendário das escolas de samba e priorizando marchinhas tradicionais, convivência pacífica e participação popular. No primeiro desfile, cerca de 300 pessoas acompanharam o caminhão de som. No segundo, o público dobrou. No ano seguinte, já eram mais de 2 mil. Hoje, estimativas creditadas por jornalistas especializados apontam entre 20 e 30 mil pessoas nas ruas — número impressionante para uma cidade de pouco mais de 50 mil habitantes.
Sem brigas, sem donos e sem lucro

Um dos pontos mais enfatizados por Augusto Nunes foi o caráter pacífico do bloco. Desde o início, a Jardineira foi pensada para evitar conflitos: o bloco em movimento, sem paradas longas, sem palcos fixos e sem disputa por protagonismo. “Quando não há plateia, não há briga”, explicou.
Ele também foi categórico ao rejeitar o rótulo de “criador” ou “pai” da Jardineira. Para Augusto, ideias só ganham vida quando são abraçadas pela população. “Se o povo rejeitasse, a Jardineira não existiria”, disse, ao criticar pessoas que hoje se apresentam como fundadoras do bloco.
Crítica à ganância e ao uso de dinheiro público

O tom mais duro da entrevista surgiu quando o jornalista abordou tentativas de transformar a Jardineira em negócio. Para ele, explorar financeiramente uma festa popular é uma distorção grave do espírito do Carnaval. “A ganância é o oposto do Carnaval”, declarou.
Augusto também alertou para o uso de dinheiro público, lembrando que recursos do Estado são, na verdade, impostos pagos pela população — especialmente pelos mais pobres. Em seus relatos, destacou que os custos iniciais do bloco foram pagos do próprio bolso, principalmente para garantir algo que ele considera essencial: o pagamento justo aos músicos.
Carnaval como vocação cultural, não como caça-níquel

Apesar das críticas, Augusto Nunes enxerga no Carnaval de rua uma possível vocação cultural e econômica para Taquaritinga, desde que construída com responsabilidade, criatividade local e participação popular — e não a partir da dependência de verbas públicas.
“Taquaritinga pode ser a capital brasileira do Carnaval de rua”, afirmou, citando a possibilidade de gerar renda com costureiras, artistas e trabalhadores locais, sem descaracterizar a festa.
Uma mensagem final clara

Ao final da entrevista, Augusto fez questão de deixar uma mensagem que resume sua visão: “A Jardineira existe para que o povo se divirta. Quem quer ganhar dinheiro com isso deveria procurar outro meio de vida.”
Mais do que um relato histórico, a entrevista se transformou em um manifesto em defesa do Carnaval popular, livre, democrático e sem donos — exatamente como nasceu a Jardineira da Tarde, nas ruas de Taquaritinga.
Fotos: Youtoube; Instagram; Facebook; Revista Oeste

