O erro e a escuridão

Absolutamente todo mundo erra. Não por falha de caráter, mas por excesso de humanidade.
O erro nasce menos do descuido e mais daquilo que ainda não foi visto. Há quem chame isso de tolice; outros preferem a palavra “ignorância”, que não ofende tanto quando compreendida em sua origem: ignorar é simplesmente não saber. É andar com a lanterna desligada, acreditando que o mundo termina onde o olho alcança.
Viver no escuro não significa viver mal. Significa viver às cegas por instantes, e esses instantes compõem quase toda a nossa biografia.
A verdade não se oferece inteira; ela se esconde em camadas, como aquelas casas antigas em que cada porta leva a um cômodo inesperado. Abrimos uma, tropeçamos na quina da mesa, pedimos desculpas ao móvel e seguimos. Eis o aprendizado.
É humildade sincera admitir que não sabemos. O contrário, a certeza inflamada, costuma produzir mais danos do que o erro honesto. Quem acredita saber tudo não acende a luz: fecha as janelas. Já quem aceita a própria ignorância anda devagar, tateia o espaço, reconhece o formato das coisas pelo toque. Aprende de verdade.
O escuro não é castigo, é método! Um modo único de ensinar atenção, responsabilidade e fé.
A verdade, quando finalmente aparece, chega como um abajur na cabeceira da cama, iluminando o suficiente para o próximo passo. O resto permanece sombra, não por maldade do mundo, mas por gentileza divina. Afinal, enxergar tudo de uma vez seria insuportável.
Errar, então, é apenas isso: caminhar enquanto a luz ainda está se organizando. E seguir adiante, mesmo assim.

