CALEIDOSCÓPIO DE GUERRAS INTERMINÁVEIS

A geopolítica do Oriente Médio e adjacências é um quebra-cabeça impossível de ser montado, as peças não se encaixam ou mudam de formato no tempo, um “barril de pólvora”, sempre a explodir.
Tentaremos resumir a situação atual: em 2020, os EUA iniciaram os “Acordos de Abraão”, mediação entre Israel e países árabes-muçulmanos, Arábia Saudita, Bahrein, Indonésia e outros, interrompidos em 2023, pela reação desproporcional de Israel ao ataque terrorista do Hamas.
TURQUIA
O paradigma da complexidade: parte do território na Ásia, parte na Europa; 15% da população da minoria curda (também islâmica), oprimida pelo Estado (laico); tem relações com Ocidente e Oriente, faz parte da OTAN, Conselho da Europa, Organização Islâmica e BRICS; apoiou os EUA na invasão do Iraque, mas atacou a região do Curdistão Iraquiano, aliado dos EUA; com a crise de Gaza, rompeu com Israel.
SÍRIA
Outra peça fora do tom, aliada da Rússia (que tem relações com Israel, Irã, Turquia, Palestina), está em guerra civil há 15 anos; a Turquia financia o Exército Nacional Sírio, oposição ao presidente Bashar al-Assad, ao Estado Islâmico (EI) e aos curdos sírios, mas há forças curdas que também lutam contra Assad e o EI e são atacadas pela Turquia e pelo Exército Nacional.
Confuso? Pois vai piorar.
Em 2024, Turquia, Rússia e Irã (Jordânia e Líbano de observadores) se reuniram no Cazaquistão, na busca de soluções para a Síria. Enquanto isso, os serviços secretos MIT (Turquia), Shin Bet (Israel) e CIA (EUA) tramavam a deposição do presidente sírio, com anuência de Arábia Saudita e Emirados Árabes. Acontece que quem assumiu o governo foi o grupo HTS, ligado aos terroristas Al Qaeda e EI, que são – ou eram – inimigos de EUA, Turquia, Israel, Arábia Saudita e Jordânia.
CATAR
Em 2025, o rico emirado, histórico mediador entre Ocidente e o Hamas, foi atacado, de surpresa, pelos israelenses, que bombardearam a capital Doha, para matar negociadores palestinos, acabando com a possibilidade de paz.
ÍNDIA E PAQUISTÃO
As potências nucleares influenciam a região. O Irã foi o primeiro a reconhecer a independência do Paquistão, islâmicos e vizinhos, alternam cooperação e tensões, hoje estão alinhados; o Paquistão não reconhece Israel, até que seja criado o Estado Palestino.
Índia e Irã se aproximaram em razão do Porto de Chabahar, na costa iraniana, que conecta a Ásia Central ao Oceano Pacífico, e será operado em conjunto. Ao mesmo tempo, a Índia faz parcerias com Israel, os primeiros-ministros Modi e Netanyahu se dizem “grandes amigos”.
IRÃ
O país persa estreitou laços com o Iraque, aumentou a venda de petróleo à China, firmou contratos com a Rússia, consolidou relações com Turquia e Arábia Saudita e ingressou nos BRICS. No ano passado, travou combates com Israel e EUA.
OUTRAS PEÇAS DESTOANTES
São inúmeras, a instabilidade política na Líbia e Egito; a fragmentação do Líbano; as catástrofes humanitárias no Iêmen, Somália e Sudão – e, claro, o genocídio palestino.
E não se tem ideia da capacidade de ação dos grupos terroristas pró-Israel, como Abu Shabad, fundado na Somália, ligado ao EI e armado por Netanyahu, e o MEK, com conexões com espiões do Mossad. E dos anti-Israel, Jihad Islâmica, Hamas e dezenas de células paramilitares (mujahidins) no Iraque, Síria e Paquistão.
FATOR TRUMP
O tresloucado embaralha mais ainda as peças. Em um ano, atacou Irã, Iraque, Síria, Iêmen, Somália e posições islâmicas na Nigéria. Criou o confuso Conselho da Paz para Gaza, enquanto humilha os aliados da Europa na ameaça à Groenlândia; atacou a Venezuela (causando instabilidade no setor de petróleo) e sinaliza que atacará o Irã, com “força devastadora”. O Irã disse que reagirá de forma “nunca vista”.
Diplomatas sauditas, turcos, egípcios e emiradenses tentam impedir o ataque israelo-americano, que arrastaria toda região, iniciando-se por grupos pró-Irã (Hezbollah do Líbano, Houthis do Iêmen, milícias do Iraque); e atores pró-Israel, como o Exército da Justiça do Baluchistão (região do Paquistão, de 10 milhões de habitantes, inimigo do governo paquistanês).
RÚSSIA E CHINA
As superpotências não ingressarão, diretamente, na guerra, mas não ficarão inertes, são países BRICS e têm interesses comerciais na região.
E O BRASIL?
A posição brasileira é historicamente clara: a criação de dois Estados, Israel e Palestina, com base nas fronteiras definidas pela ONU, em 1967, para viverem em paz e segurança; o multilateralismo, dos BRICS e Sul Global, na solução dos conflitos, sem alinhamento automático a nenhuma das grandes potências.
Por fim, a dúvida premente: o barril de pólvora explodirá, incluindo a possibilidade nuclear? Ou será mais um incêndio a ser controlado?
(Com: CNN; Al Jazeera; G1; DW; DCM; Wikipédia e agências).

