Entre pães e passos

Na padaria, o tempo parecia ter tropeçado: ninguém na fila, só um silêncio com aroma de pão recém-saído do forno. Os poucos presentes mastigavam urgências invisíveis, enquanto um senhor, já com algumas primaveras a mais, desenhava círculos com a bengala e a impaciência. Queria que o relógio andasse mais rápido, ou pelo menos que alguém andasse até ele.
“Não tem ninguém pra atender?” – perguntou, não como quem reclama, mas como quem pede ao universo uma confirmação de existência. Quando finalmente surge a atendente, ele dispara: “Quero uma bengala”. Ela, sem perder o compasso, responde que não tem. E ele, sem esperar o resto do mundo, sentencia: “Então não quero nada.” Sai, deixando atrás de si uma trilha de perplexidade e farinha.
A moça, meio sem graça, comenta: “Ele nem esperou eu dizer se podia ser uma baguete.” E ali, entre o riso contido e a memória solta, percebo: bengala já foi pão antes de virar apoio. Na infância, bengala era café preto, mesa cheia e pressa de crescer. Minha mãe me mandava buscar uma bengala e marcar na caderneta, e eu voltava orgulhosa, carregando aquele pão comprido como se fosse um troféu de responsabilidade.

O pão reinava sobre a mesa, alimentava manhãs, virava lanche, sobrevivia a mordidas apressadas e disputas pelo miolo. Era simples, mas resolvia a vida por algumas horas – o que, convenhamos, já é quase milagre.
Hoje, complicamos o que sustenta: porções individuais, afetos individuais, vidas embaladas a vácuo. Ninguém quer depender, ninguém quer dever, ninguém quer a palavra antiga que carrega história junto.
Talvez por isso o senhor tenha ido embora. Não era só sobre pão. Era sobre reconhecimento: dizer uma coisa e o mundo entender sem precisar de legenda. Ao sair, ficou a cena, meio borrada, como retrato fora de foco: um senhor apoiado na bengala de andar, indo embora sem a de comer – aquela que se parte com as mãos e sustenta o dia.
A idade, às vezes, pesa menos nos ossos do que nas ausências sem nome. E entre a bengala que apoia o corpo e a que alimenta a memória, ele saiu levando só o que cabia na mão e, quem sabe, um pouco de desencanto no bolso.

