QUANTO CUSTA A GROENLÂNDIA?

Com base no preço de mercado das reservas minerais (grafite, lítio, petróleo, gás) e no valor militar/econômico pela proximidade das rotas marítimas do Ártico, um analista do American Action Forum (instituto de direita) sugeriu que a Groenlândia valeria U$ 2,8 trilhões.
A chance de a Dinamarca “vender” a Groenlândia aos EUA é praticamente nula – a ilha é inegociável, disse o governo dinamarquês. Na remota hipótese de isso ocorrer, o efeito sobre o dólar seria catastrófico.
O dólar se tornou moeda de referência em 1944, no acordo de Bretton Woods, que instituiu o padrão dólar-ouro, para cada dólar, havia 0,9 grama de ouro, estocado no estado de Kentucky. Nos anos 1970, o presidente francês Charles de Gaulle trocou as reservas de dólar pelo ouro americano, levando bancos europeus a fazer o mesmo. Imediatamente, o presidente Nixon extinguiu o padrão dólar-ouro, o “maior calote da história”: surge o câmbio flutuante, o valor das moedas se “ajustam” no mercado. O lastro (garantia) do dólar passou a ser a confiança no governo e na solidez da economia americana.

Porém, os ativos/reservas internacionais não são em “dólar papel-moeda” e sim em Títulos do Tesouro Americano (Treasuries), que podem ser resgatados, considerados seguros por serem “afiançados” pelos EUA. A China possui U$ 760 bi em títulos americanos, U$ 2,4 tri em outras moedas, ouro e prata, e, especula-se, mais U$ 3 tri em “bancos paralelos”, totalizando U$ 6,1 tri em reservas.
Os EUA são o país mais “financeirizado” do planeta, o dólar é instrumento político, econômico e militar. Pode parecer contraintuitivo, mas manter a “moeda-chave” depende da manutenção da dívida externa dos EUA, hoje em U$ 38 tri, ou seja, se o governo americano “quitar” sua dívida e “repatriar” os títulos, não haveria mais porque utilizar o dólar como referência mundial.
Por outro lado, se a dívida pública sair do controle, o dólar poderia se desvalorizar e fazer dos títulos americanos uma “moeda podre” (junk bond), de baixa qualidade e alto risco de inadimplência, inviabilizando o dólar como indexador global.
Com o tarifaço e o uso do sistema bancário internacional para “punir países hostis” (a Rússia teve U$ 300 bi de suas reservas “confiscados”), o mercado de títulos começou a perder investidores. O Japão, maior detentor de títulos americanos (U$ 1 tri), iniciou um processo lento, mas gradual, para se desfazer destes papéis – por isso, está difícil baixar os juros americanos (hoje em 4%).
Os EUA não têm “caixa” para comprar a Groenlândia, teriam que “imprimir dinheiro” ou expandir títulos, o que causaria a desvalorização do dólar e um possível colapso econômico. Trump parece não compreender a complexa engenharia-financeira; “comprar” a Groenlândia definiria o processo de desdolarização, sob gerência da China.
Analistas sugerem que não seria o fim do dólar, mas que “coexistiria” com outras moedas (euro, libra, yuan) nas transações internacionais.
(Com: Forbes; G1; UOL; RFI; EOM; e agências).

