O Silêncio que Não Combina com Confete
Quando o carnaval encontra a canetada e o povo paga a conta
Taquaritinga não vive seus melhores dias na economia — disso ninguém duvida. O comércio sente, os trabalhadores sentem, o povo sente. E, justamente quando a cidade deveria abraçar uma de suas maiores vitrines, o Carnaval de Taquaritinga, considerado o melhor da região e motivo de orgulho por sermos Município de Interesse Turístico, surgem decisões que parecem desafinar a própria história.

Na primeira noite de festa, o palco montado em frente ao tradicional Bar do Tadao teve o som interrompido às 22h. Sim, às 22h. Em pleno carnaval. Dizem que se a música continuasse, o público não desceria até o Batatão — criando uma espécie de concorrência.
Mas desde quando alegria tem CEP fixo?

O que não perceberam é que os públicos são distintos. Quem frequenta a Esquina Cultural permanece ali por identidade, por hábito, por afinidade. Com ou sem som — e foi exatamente o que aconteceu. A multidão continuou. Só que agora envolta num silêncio que contrariava o espírito da festa. Uma noite de mudez constrangedora.
Cultura não nasce por decreto. Não se transfere por imposição. Forma-se naturalmente, no encontro das pessoas, na repetição dos rituais, no compasso dos anos. Chega de regras estapafúrdias, não pode mesa e cadeira na rua, não pode vendedor, não pode som – para com isso.
O pior: não foi apenas o som que foi calado.

Um pipoqueiro, instalado defronte à Casa da Massa, foi orientado pela fiscalização (e não é culpa deles, apenas seguem as regras) a encerrar suas vendas e se deslocar para um ponto pré-determinado — distante o suficiente para desanimar qualquer um. Outro vendedor de bebidas recebeu orientação semelhante. Ambos inconsoláveis. “É o momento em que podemos ganhar um dinheirinho a mais”, disse um deles. E é verdade.

Num município onde o poder público não dispõe de recursos para socorrer músicos, ambulantes e pequenos trabalhadores, o mínimo esperado seria apoio — não a restrição da sua fonte de renda. Se há aglomeração sem segurança privada, cabe ao Estado garantir a presença necessária.
Se novos “Batatinhas” aparecem além do Batatão original, talvez seja apenas o retrato de uma cultura viva — múltipla, espontânea. Não se pode calar o carnaval sob nenhum argumento burocrático. Porque o carnaval não é só evento. É sustento. É identidade. É encontro. E, sobretudo, é povo.
Deixem as pessoas trabalhar. Deixem a música tocar. Deixem o carnaval seguir seu rumo — como sempre fez.

