Pensar dá trabalho

Entre telas brilhantes e livros esquecidos, o desafio de continuar pensando

Sou do tempo em que internet era coisa futurista — quase ficção científica — e rede social era assunto que nem passava pela cabeça. Na infância, brincávamos. Sim, brincávamos mesmo: corríamos, inventávamos histórias, subíamos em árvores, ralávamos o joelho e aprendíamos com isso. Hoje, ao que parece, brincar virou artigo raro, quase peça de museu.

As crianças agora ganham um aparelho eletrônico quando mal aprenderam a segurar a própria mamadeira. No restaurante, antes mesmo de aprenderem a pedir suco, já recebem um tablet com um episódio da Galinha Pintadinha para se distrair. Sentadas naquelas cadeirinhas altas, começam ali sua iniciação ao universo das telas. Pouco depois, ainda no fundamental 1, alguns já ganham o primeiro celular — presente que, na prática, se torna companhia constante e, muitas vezes, silenciosa.

Nós não tínhamos essa enxurrada de informações. Tínhamos tempo. Tempo para ler, para ouvir discos de vinil até gastar a agulha, para repetir músicas e decorar letras. Aprendi a gostar de leitura com os gibis do Tio Patinhas, da Turma da Mônica, com histórias simples que, sem que eu percebesse, ensinavam a imaginar. A leitura não era obrigação escolar; era descoberta.

E quando pensamos que já era o bastante lidar com a tecnologia que nos afasta dos livros e da música de qualidade, surge a Inteligência Artificial. Ela trabalha por nós. Organiza, responde, escreve, calcula — tudo em frações de segundos. Faz, com eficiência admirável, aquilo que antes exigia esforço: pensar.

Não se trata de negar o avanço. Mas é preciso perguntar: se não lemos, se não ouvimos com atenção, se não refletimos — e ainda delegamos o pensamento às máquinas, o que estamos nos tornando? A ausência do hábito de ler, de apreciar uma boa música, de enfrentar um problema com a própria cabeça, pode estar nos tornando mais rápidos, porém mais vazios.

Talvez estejamos criando uma geração protegida demais, guiada demais, poupada demais. Alguns pais, na ânsia de fazer “tudo pelo meu filho”, acabam colocando-os sob as asas o tempo inteiro. Mas crescer exige voo. Exige queda. Exige levantar. Exige dúvida. Exige pensamento próprio.

Pensar dá trabalho. Mas é justamente esse trabalho que nos mantém humanos.

E, se ainda quisermos acreditar que a humanidade tem jeito, talvez o primeiro passo seja simples: devolver às crianças — e a nós mesmos, o direito de pensar.

Fotos: colaweb; blogpost.com