Quando a festa encontra a infância
Carnaval sempre me trouxe memórias afetivas profundas
Por: Dra. Lívia Franco – Endocrinologista Pediatra

Lembro do meu tio Guilherme e do nosso querido trio elétrico Batatão. Da Zélia, com sua habilidade ímpar de transformar sonhos em fantasias para que eu pudesse desfilar na Batata Doce. Da Casa dos Artistas, do baile no Clube Imperial, dos amigos e da República DNA, parte viva da minha história.
Quando penso nessa trajetória, percebo que o Carnaval foi assumindo novas formas conforme as fases da minha vida. Mas há algo que permaneceu como referência: mesmo com menos acesso à informação naquela época, havia respeito à infância. Havia matinês. Havia horários adequados. Havia cuidado e prioridade para a segurança.
E é sobre isso que quero falar.
O Carnaval é uma manifestação cultural legítima, vibrante e profundamente brasileira. Sou fã declarada dessa festa que respira alegria. Mas, quando falamos de crianças nesse cenário, precisamos lembrar que infância não é treino para a vida adulta. É o período de maior neurodesenvolvimento da vida. É uma fase que exige proteção, presença e responsabilidade.
Muitas vezes, os adultos passam o ano saudosos, aguardando os dias de folia para extravasar e reencontrar amigos. Porém, fazer a criança caber integralmente nos planos do adulto pode ser um ato de desrespeito. O tempo dela chegará. A infância não volta.
Alguns cuidados são fundamentais.

Hidratação frequente, a criança nem sempre percebe ou verbaliza a sede. Proteção solar com reaplicação a cada duas horas, uso de chapéus e busca por sombra sempre que possível. Atenção ao entorno: escolher ambientes mais tranquilos, evitar aglomerações excessivas e manter supervisão ativa.
Em relação à alimentação, confesso que a memória me leva ao cachorro-quente da Ângela, ao lanche do Big Zelli e, hoje, ao sanduíche do Pexão. O Carnaval também mora nessas lembranças. Mas, quando falamos dos pequenos, é prudente priorizar alimentos mais leves e, se possível, levados de casa.
As fantasias precisam ser confortáveis, com tecidos menos sintéticos para evitar alergias e irritações. Atenção a pedrarias e lantejoulas que possam machucar a pele. Cuidado redobrado com cosméticos: apenas produtos certificados e específicos para crianças, evitando exageros.
E um ponto que merece reflexão profunda: criança precisa ser criança. Roupas incompatíveis com a faixa etária e a sensualização precoce não são inofensivas. Elas antecipam experiências emocionais para as quais a criança ainda não está preparada e podem expô-la a riscos que, muitas vezes, passam despercebidos.
Celebrar com responsabilidade também significa oferecer algo que vai além da festa: convivência segura. A criança se regula a partir do adulto. Quando há presença, afeto e limites claros, o Carnaval pode se transformar em memória afetiva saudável, daquelas que ficam para a vida inteira.
Neste ano, admirarei a festa de longe, com a mesma admiração de sempre e com a convicção de que proteger a infância é um compromisso coletivo.
Porque a infância não volta.
E o conhecimento só é válido quando é compartilhado.

