O pai da criança

Quem pariu que embale

Dizem que, na política, toda boa notícia vem acompanhada de uma disputa silenciosa — ou nem tão silenciosa assim. Basta aparecer uma emenda, um recurso ou qualquer benefício para a cidade, que logo surge uma multidão de “pais” reivindicando a autoria da criança. Em ano eleitoral é assim.

Por aqui, não é diferente. Houve quem trabalhasse nos bastidores, quem batesse em portas, quem insistisse quando tudo parecia difícil. Mas, na hora decisiva, quando os aplausos começaram, outro nome ecoou mais alto. E não sem causar incômodo — afinal, reconhecimento não é vaidade, é justiça.

O problema não está apenas no desconforto de quem foi deixado de lado. Vai além. Quando se apagam os verdadeiros responsáveis, desestimula-se quem poderia continuar ajudando. O deputado que articulou, o vereador que insistiu, o intermediador que construiu pontes — todos pensam duas vezes antes de repetir o esforço. E, no fim, quem perde é a própria cidade.

Isso acontece com verbas, com veículos, com equipamentos — com tudo aquilo que chega como fruto de trabalho coletivo, principalmente em ano eleitoral. Mas a narrativa, muitas vezes, insiste em ser individual.

Talvez falte apenas um pouco de humildade. Aquela velha sabedoria de reconhecer méritos, de dar nome aos responsáveis, de entender que dividir o crédito não diminui ninguém — ao contrário, engrandece.

Porque, no fim das contas, não é preciso que uma mesma criança tenha tantos pais. Basta que cada um reconheça o seu papel. E, como diz o ditado, é justo que quem pariu tenha também o direito de embalar.