A Quaresma como silêncio

Nunca havia pensado a Quaresma como um exercício pessoal. Era, para mim, um tempo que passava, como tantos outros, sem exigir esforço, sem pedir resposta. Até que, neste ano, uma provocação ganhou forma: a recomendação do Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026.

“Escutar e jejuar: Quaresma como tempo de conversão.” Não foi apenas um tema. Foi um chamado.

O pontífice foi direto e, talvez por isso, tão profundo: propôs aos fiéis um jejum das palavras ofensivas e das calúnias, dentro e fora das redes sociais, inclusive nos espaços mais tensos como a política. Mais do que isso, convidou ao silêncio como caminho para escutar a Deus.

Foi a primeira vez que senti que a Quaresma me alcançou. Decidi, então, fazer o meu jejum. Não falar dos outros. Nem do que fizeram. Nem do que deixaram de fazer.

Pareceu simples o exercício. Mas logo compreendi: o desafio não está na fala, está no impulso. Falar dos outros é quase automático. Está nas conversas casuais, nos comentários que parecem inofensivos, nas opiniões rápidas que carregam julgamentos silenciosos. Jejuar disso é como interromper um fluxo antigo e, por isso mesmo, tão difícil.

No início, há o incômodo. Depois, o freio. E, então, algo se abre, vez que conter a palavra não é apenas se calar, é escolher. Escolher não ferir. Escolher não alimentar. Escolher não perpetuar aquilo que, no fundo, nunca constrói.

E foi nesse espaço, criado à força de consciência, que algo novo começou a surgir. O silêncio. Mas não um silêncio vazio, um silêncio habitado. Um silêncio que escuta.

A recomendação papal, então, deixou de ser externa. Tornou-se experiência. Porque, quando a palavra se aquieta, algo mais sutil ganha voz. Uma escuta que não disputa, que não responde, que não julga. Uma escuta que, talvez, seja o início de toda conversão verdadeira.

Escutar a Deus, como disse o Papa, pode não ser sobre ouvir sons, mas sobre diminuir o ruído. E como fazemos ruído. Com palavras apressadas. Com opiniões não pedidas. Com verdades ditas sem caridade.

Jejuar disso é, antes de tudo, um retorno à medida, à intenção, à uma versão mais consciente de si.

E, no fim, volto ao ponto de partida: eu, que nunca havia pensado a Quaresma como algo que me dissesse respeito, encontro nesse exercício, não um rótulo, mas um caminho.

Jejuar das palavras não pertence a uma religião, embora possa nascer dela; não exige pertencimento. Não é sobre ser católica, mas sobre ser responsável. E isso que torna tudo mais bonito: perceber que, mesmo quando o convite vem de um lugar de fé, ele encontra eco onde há disposição e transforma, amorosamente, qualquer um que decida escutar.