Nem toda responsabilidade está onde primeiro se enxerga

Certos comentários incomodam e pedem reflexão posterior. Em uma agência bancária, durante uma conversa protocolar com a gerência, fui surpreendida com uma fala bem ardilosa: “A senhora já está aposentada? Por isso o IPREMT está falido”.

Não era uma análise técnica. Era um veredito. E, como todo julgamento apressado, carregava o peso da ignorância travestida de opinião.

A experiência ensina: a Constituição Federal de 1988 e a legislação previdenciária asseguram o direito à aposentadoria diferenciada aos profissionais do magistério. Não se trata de privilégio, é reconhecimento. Reconhecimento de uma carreira marcada por jornadas que extrapolam o relógio, por almoços adiados, por cafés inexistentes, por uma dedicação que, muitas vezes, se confundiu com abnegação. Trabalhei, como tantos outros, sob a lógica silenciosa de quem cumpre o dever sem esperar aplausos, mas, ainda assim, espera respeito.

O que causa perplexidade não é apenas a fala isolada, mas o eco coletivo que ela representa. O senso comum, sempre alheio à necessária reflexão crítica, insiste em apontar culpados onde faltam informações. A narrativa simplista de que aposentados são responsáveis pelo colapso dos regimes próprios de previdência ignora, ou escolhe ignorar, as verdadeiras causas do problema.

É preciso dizer, com a clareza que o Direito exige: o desequilíbrio dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) não nasce do exercício legítimo de direitos, mas de gestões reiteradamente irresponsáveis. Ao longo do tempo, administradores falharam duplamente: primeiro, ao descontar as contribuições dos servidores ativos diretamente em folha e não repassá-las ao fundo previdenciário; segundo, ao nomear gestores desprovidos de qualificação técnica para conduzir um sistema que exige rigor, planejamento e compromisso com o interesse público.

Como se não bastasse, diante da ausência de repasses, recorreram ao próprio fundo para custear a folha dos inativos. Um movimento que comprometeu não apenas o presente, mas condenou o futuro. E, no entanto, a conta segue sendo atribuída àqueles que menos contribuíram para esse cenário: os aposentados.

A ironia é quase cruel. Após anos de contribuições obrigatórias, suportadas fielmente no contracheque, o servidor, ao se tornar inativo, passa a arcar novamente com descontos destinados a recompor um fundo que foi esvaziado por má gestão. Paga-se, portanto, duas vezes: uma pelo direito adquirido, outra pelo erro alheio. Mas essa realidade raramente é compartilhada. Não se torna manchete. Não viraliza. O que circula com facilidade são os rótulos, os julgamentos e as sentenças precipitadas. É mais simples culpar quem está visível do que investigar o que foi ocultado.

Diante desse cenário, é fundamental deslocar o foco das análises superficiais para uma reflexão mais profunda sobre as causas reais dos problemas do IPREMT. Nem sempre aquilo que se repete é verdade. É preciso questionar o percurso dos recursos, investigar as decisões administrativas e reconhecer que a responsabilidade não está, necessariamente, onde primeiro se enxerga. Compreender exige disposição para ir além do que foi dito, buscando uma análise mais cuidadosa e justa.