Remédios Amargos

Governar em crise exige mais coragem do que discursos

Dizem que a cidade está sem dinheiro. Não é novidade — nunca foi segredo guardado a sete chaves. O prefeito sabia quando se candidatou, sabia quando assumiu e, no fundo, todo mundo também sabia. A diferença é que, na vida do cidadão comum, quando o dinheiro falta, a solução costuma ser direta: cortar gastos, apertar o cinto, adiar planos.

Na administração pública, deveria ser parecido. Mas nem sempre é.

Fala-se em crise, mas os números contam histórias curiosas. São 61 cargos em comissão. Ao percorrer a lista, há nomes que soam distantes, quase desconhecidos — como se nunca tivessem cruzado a porta da prefeitura. É verdade que nem todos estão ali por indicação política pura: muitos são servidores de carreira, chamados a assumir responsabilidades maiores e, por isso, recebem um adicional. Nada mais justo — ninguém trabalha sozinho, muito menos um prefeito.

Ainda assim, a conta soma mais de R$ 380 mil por mês. No fim do ano, chega a R$ 4,5 milhões. Não é absurdo isoladamente, mas pesa quando o discurso é de escassez.

Talvez o problema não esteja apenas nos cargos, mas na falta de revisão. Falta olhar para dentro e perguntar: onde se economiza de verdade e onde se desperdiça sem perceber? Falta reorganizar processos, respeitar a fila de pagamentos e parar de justificar o inevitável todos os dias no Diário Oficial.

Crise exige mais do que explicações — exige decisão. E decisão, quase sempre, vem acompanhada de desconforto.

Há remédios amargos que ninguém quer administrar. Mas ignorá-los não curasó adia o colapso.