OUSAR PENSAR

O psicanalista belga, Mattias Desmet, doutor em Psicologia, com mestrado em Estatística, professor da Universidade de Ghent – cujo lema é “Ouse Pensar” –, concedeu uma emblemática e esclarecedora entrevista ao podcast Neutrality Studies, do suíço Dr. Pascal Lottaz, professor da Universidade de Kyoto (Japão), disponível no YouTube*, com tradução para o português.

Desmet é autor do livro “A Psicologia do Totalitarismo”, publicado em 2022, embasado nas teses da filósofa alemã Hannah Arendt e do francês Foucault, com menções ao médico e psicólogo francês Gustave le Bon. Na obra, o psicanalista desvenda como as “massas” se rendem ao totalitarismo, por meio de um processo de formação de narrativas, fincado na “crença fanática” no próprio discurso e na “rejeição incondicional” a tudo o que o contrarie. Para ele, a formação de massas surge onde há “o medo, a depressão e a falta de sentido”, e relaciona a gestão da crise da pandemia de coronavírus ao crescimento do neofascismo mundo afora, afirmando uma visão do futuro em que “um novo tipo de totalitarismo surgiria após a queda do nazismo e do stalinismo”, liderado por burocratas/tecnocratas “enfadonhos”, sem caráter e desprovidos de capacidade intelectual.
Na entrevista, Desmet analisa basicamente a sociedade europeia e sua insana “russofobia”, i.é., a crença de que Putin é uma ameaça, mesmo que Moscou jamais se portou como agressor ou algo parecido, e cita também o “trumpismo”, que faz com que muitos norte-americanos acreditem nas mais absurdas declarações do presidente.
Suas considerações cabem perfeitamente ao Brasil, sobretudo ao fenômeno do bolsonarismo, pois o líder, o ex-presidente Jair Bolsonaro, é, claramente, um sujeito intelectualmente obtuso. Mesmo assim, angariou milhões de seguidores fanáticos, que negam, irracionalmente, todas as evidências que contrariam suas posições político-sociais.
O bolsonarismo já foi descrito pelo psiquiatra forense brasileiro, Guido Palomba, como “dissonância cognitiva coletiva”, que resultou na negação do raciocínio lógico e na adesão ao discurso de ódio/violência – em consonância com a tese do psicanalista belga.
A má notícia é que não há uma solução fácil para o problema, os fanáticos atingidos pelo processo de formação de massas não querem debater nem refletir, estão imobilizados pelo radicalismo, rejeitam todo e qualquer argumento, por mais lógico e racional que seja, e seguem as ideias da extrema-direita, expondo, sem pudor, seus rancores e frustrações.
Resta-nos, aos democratas, resistir, resilientes, e enfrentar o desafio de defender a liberdade, a igualdade e a Democracia!
* youtu.be/HzXBKKKQhpU?si=Fbg67cWfBsgVBDZa

