Quando o exemplo precisa vir de casa
Cobrar da população exige, antes de tudo, que o poder público reveja seus próprios excessos e pratique a coerência na gestão pública

Há situações que desafiam a lógica do cidadão comum. A administração municipal anuncia que tem R$ 108 milhões a receber em impostos e atribui parte da inadimplência a um “negativismo” instalado na cidade. Mas será mesmo tão simples assim? Quem deixa de pagar seus tributos pode fazê-lo por inúmeros motivos: falta de emprego, dificuldades financeiras, sensação de abandono ou até a percepção de que o retorno em serviços públicos não acompanha o peso da cobrança.
Ao mesmo tempo em que endurece o discurso e promete apertar o cerco contra os inadimplentes, o prefeito lança a frase: “façam a sua parte que faremos a nossa”. A declaração seria justa se viesse acompanhada de um exemplo claro de contenção e responsabilidade dentro da própria máquina pública.
No entanto, pouco depois, o secretário da Fazenda informa na Câmara que a prefeitura desembolsa mais de R$ 200 mil por mês com MEIs. Em um cálculo simples, isso representa algo próximo de R$ 3 milhões ao ano. É sabido que muitos desses microempreendedores individuais acabam sendo utilizados como alternativa para suprir limitações de contratação direta, prestando serviços contínuos ao município.
Além disso, permanecem os cargos em comissão de livre nomeação, que também representam custo elevado aos cofres públicos. E o problema não é apenas financeiro. Basta consultar o Portal da Transparência para encontrar situações curiosas: servidores lotados em uma secretaria e atuando em outra, além daqueles cuja presença sequer é percebida pela população.
Se a prefeitura realmente pretende “fazer a sua parte”, talvez o primeiro passo seja olhar para dentro. Antes de aumentar a pressão sobre o contribuinte, seria prudente enxugar gastos, rever contratos, reduzir excessos e garantir mais clareza na utilização do dinheiro público.
Afinal, credibilidade não se impõe no discurso. Ela se constrói no exemplo.

