Quando os Bons se Calam

O desinteresse pela política abre espaço para que outros decidam o futuro de todos nós

A entrevista concedida pela chefe do Cartório Eleitoral, Adriana Fricelli, ao jornalista Auro Ferreira, trouxe um dado que deveria preocupar qualquer cidadão: cerca de 10,7 mil eleitores da comarca permanecem com o título cancelado. Mais do que um número, isso representa milhares de vozes que deixarão de participar de uma das decisões mais importantes da vida em sociedade.

É comum ouvir alguém dizer: “Não gosto de política”. A frase parece simples, quase inofensiva. Mas ela carrega um perigo silencioso. A política não desaparece porque decidimos ignorá-la. Ela continua presente na escola onde estudamos, no hospital onde buscamos atendimento, na rua que precisa de manutenção, na segurança do bairro e até no valor dos impostos que pagamos.

Gostar ou não de política não muda o fato de que ela influencia diariamente nossas vidas.

Muitos cidadãos se afastam das eleições por decepção. Outros acreditam que um único voto não faz diferença. Há ainda quem considere que todos os candidatos são iguais. O resultado desse pensamento coletivo é preocupante: os cidadãos mais conscientes se afastam, enquanto os grupos mais organizados permanecem participando e decidindo os rumos da sociedade.

A democracia não exige perfeição dos eleitores. Exige participação.

No Brasil dizem que o voto é obrigatório – e é, no entanto, se você descumpriu com esta obrigatoriedade basta pagar uma multa irrisória, de R% 3,50, e tudo está resolvido. Quando uma pessoa deixa de votar por desinteresse, está transferindo para outros a responsabilidade de escolher quem governará, legislará e administrará os recursos públicos. E, gostemos ou não, alguém fará essa escolha.

A política pode até decepcionar. O que não podemos permitir é que a indiferença decida o nosso futuro. Porque, quando os cidadãos de bem se calam, alguém fala por eles. E nem sempre diz aquilo que gostariam de ouvir.