Autistas não podem ficar invisíveis
Ausência da Ciptea mostra a distância entre a aprovação de uma lei e sua efetiva aplicação

Há situações na política que desafiam qualquer lógica. Esta é uma delas.
Um vereador apresentou uma lei importante, sensível e necessária: a criação da Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea). A proposta foi aprovada e, durante a gestão do então prefeito Vanderlei Mársico, saiu rapidamente do papel. As carteirinhas passaram a ser emitidas, garantindo mais dignidade, identificação e acesso a direitos para pessoas autistas e suas famílias.
Até aí, um exemplo de que a política pode funcionar.
Mas o roteiro ganhou contornos difíceis de explicar quando o autor da própria lei assumiu a cadeira do prefeito – suspendeu a emissão das carteiras. Segundo relatos de pais de autistas, a justificativa foi de economia. Economia? Afinal, qual é o custo real de um documento diante da tranquilidade proporcionada a famílias que enfrentam desafios diários?
A situação se tornou ainda mais frustrante quando um novo governo assumiu. Com a chegada da administração de Fúlvio Zuppani, surgiu a expectativa de que o serviço fosse retomado. Afinal, o prefeito é médico. Passado mais de um ano e meio, porém, a realidade permanece a mesma: as carteirinhas continuam sem ser emitidas.
Autistas pedem apenas respeito.
E respeito começa quando o poder público faz aquilo que a legislação determina. Porque uma lei criada, aprovada e não cumprida acaba se transformando apenas em papel. Já a carteira de identificação representa muito mais do que um documento: ela simboliza reconhecimento, inclusão e cidadania.
No fim das contas, a discussão não deveria ser sobre custos. Deveria ser sobre prioridades.

