O além me chamou, mas eu tinha checkout no dia seguinte

Era fim de primavera quando descobri que o corpo desperta antes da alma. Uma alegria preguiçosa, que só as férias no litoral sabem oferecer, me envolveu. Passei a manhã entregue ao mar e ao vento salgado, caminhando pela orla como quem desenha um pensamento no chão.
Depois, deixei que o sol me escrevesse por algumas horas, até que a pele pedisse água doce e sombra. À tarde, decidi coroar o dia com uma imersão quente, dessas que prometem relaxamento profundo. Prometeu tanto que, por alguns minutos, quase relaxei para sempre. A água abraçava, o silêncio embalava, e eu, distraída, fui ficando leve. Leve demais. Nesse ponto o relaxamento deixou de ser descanso e começou a flertar com o desconhecido. Só percebi quando o ar pareceu faltar, ou quando eu faltei ao ar. Difícil saber.

Saí em busca de frescor e encontrei um banco. E, ao lado dele, uma festa: gente rindo, balões, aquela alegria coletiva para anunciar o sexo do bebê num chá revelação. Sentei-me como quem pousa. E então, algo em mim desligou. Devagar, fui saindo do ar até o breu total.
Meu mundo ficou branco, depois preto, depois nada. E, curiosamente, não doeu. Acordei como quem retorna de um sonho que não lembra ter sonhado. Tentei caminhar. O chão discordou. Houve outra queda, outra pausa involuntária, outra volta. E, por fim, em nova tentativa, experienciei um encontro íntimo com o piso frio do banheiro, que deixou no meu supercílio uma assinatura nada poética, embora, admito, bastante dramática: sangue, susto e uma plateia improvisada de desconhecidos solidários ao meu redor.
Em meio a vozes gentis e mãos que me ergueram, fui escoltada até o quarto do hotel como se fôssemos velhos amigos. A festa ao lado ganhou um capítulo inesperado; eu ganhei um corte e uma reflexão.
Quando penso no que aconteceu, não encontro medo ou pavor. Só um blackout suave, como se alguém tivesse abaixado o volume da existência por alguns instantes. Se morrer for algo parecido, o barulho é menos do que imaginamos, embora eu prefira continuar por aqui inteira, ou quase…
Me resta, agora, a impressão de que a vida tem um senso de humor peculiar. Num dia perfeito, ela me deu sol, mar, piscina, uma banheira exageradamente quente e três quedas coreografadas. E, de brinde, a lembrança de que somos frágeis, sim, mas também teimosamente vivos. E que, às vezes, basta um supercílio rasgado para me lembrar disso.

