Parte 2 – Os liberticidas, a mentira industrializada e a destruição da democracia
A liberdade e o poder
Por: Rogério Baptistini, sociólogo e professor universitário
Michelangelo Bovero usa uma imagem poderosa, contrapondo o escravo e o servo à condição de liberdade. Ambos não são livres, mas o primeiro é um servo acorrentado; o segundo, um escravo desacorrentado. Os dois têm um senhor, que deles dispõe e sobre eles exerce poder. Se o servo se liberta, o senhor não tem mais poder sobre ele. E o mesmo acontece com o escravo? Basta fugir das correntes para acabar com a escravidão?
Pensemos como Berman, comentando Marx: “O fetichismo das mercadorias é um mito determinista criado para conservar a ordem vigente, convencendo as pessoas de que não têm como agir diferentemente. Imaginando-se privados de liberdade, os homens se transformam em homens sem liberdade: sua profecia de impotência se autorrealiza”.
Bovero distingue duas liberdades, a positiva (o poder da pessoa decidir sobre si mesma) e a negativa (não estar submetida ao poder de outro). Liberdade e poder, apesar da necessidade de autoconsciência levantada por Berman, são dinâmicas e fortemente condicionadas. À medida que a liberdade do servo e do escravo aumenta, o poder sobre eles diminui, ou seja, a liberdade é, também, uma limitação do poder alheio. Em um caso, há a conquista da autonomia, que é a imposição de regras sobre mim mesmo; em outro, a da contenção, que é a negação do poder.
Para ser livre, num sentido marxista de conquista, que remete a Hegel, mas com uma virada materialista, não basta a autoconsciência, é preciso transformar as condições objetivas de existência, é necessário que as pessoas ajam sem coibições, que tenham a consciência de que são livres, de que existem possibilidades alternativas. E é isso que os liberticidas não permitem.

