AS MÃES QUE A INFÂNCIA ME DEU

Quando pequenos, não sabemos dar nome às coisas. Apenas sentimos. Eu era menina quando aprendi, sem compreender muito bem, que a vida podia ser grande demais para uma mãe só.

Nessa época, meu pai havia saído de casa e, com ele, ficara uma ausência que minha mãe precisou preencher de todas as maneiras possíveis. Trabalhava como professora em três turnos, costurava (quando encontrava um pedaço de tempo) e fazia o que tantas mulheres de sua geração fizeram: transformava cansaço em cuidado e necessidade em coragem.

Eu, ainda criança, não entendia a dimensão de tudo aquilo. Entendia apenas que minha mãe trabalhava muito. E que, enquanto ela trabalhava, eu vivia entre as casas das minhas amigas. Foi uma sorte que a vida me ofereceu.

Na casa de cada uma delas havia uma mãe. E aquelas mulheres, cada uma à sua maneira, foram compondo uma espécie de grande família afetiva que a infância foi desenhando ao meu redor. Eu chegava, entrava, sentava, observava. E guardava.

Guardei vozes, cheiros, receitas, gestos, maneiras de arrumar a casa. Guardei coisas que, naquele tempo, pareciam pequenas demais para merecer lembrança. Hoje sei que eram justamente as pequenas coisas que estavam construindo minhas maiores memórias.

Entre essas mulheres estava “Dona Irene”. Quem a visse de fora poderia imaginar uma mulher cuja vida se resumia à casa e aos filhos. Eu nunca a enxerguei assim. Eu a vi no movimento dos dias. Vi suas mãos ocupadas com as roupas, a comida, os filhos, os afazeres que nunca terminavam. Vi o leite que vinha do sítio transformar-se em queijo fresco feito com sua ajuda. Vi uma mulher que parecia ter aprendido a cuidar de tudo sem deixar de cuidar também de si.

Pois havia os brincos. Dona Irene estava sempre com brincos. E o batom, discreto, de um vermelho que meus olhos de menina achavam bonito. Ela não precisava de muito. Um par de brincos, um pouco de batom e aquela fala mansa, que nunca escondia a firmeza de quem sabia muito bem quem era.

Observando, aprendi que força nem sempre precisa de barulho. Ela foi uma mulher que sustentou uma casa inteira enquanto apenas preparava o almoço. Atravessou dificuldades como tantas outras mulheres e continuou colocando seus brincos. E mesmo com as mãos ocupadas pela vida, encontrou um instante para passar batom.

Partiu há pouco. Foi uma dessas crueldades diante das quais a vida parece perder qualquer explicação. Mas, de alguma maneira, também lhe concedeu uma última delicadeza: não prolongou o sofrimento. Gosto de pensar que foi a misericórdia que chegou antes da dor. E, quando penso nela agora, não consigo imaginá-la doente. Minha memória não permite. Prefere guardá-la nos detalhes.

“Dona Irene” foi uma dessas mães que minha infância me deu. E essa é a parte mais bonita da história: minha mãe, que precisou trabalhar tanto para cuidar dos seus quatro filhos, não imaginava que, enquanto corria contra as horas, outras mulheres ajudariam a cuidar de um pedaço de mim.