Parte 3 – Os liberticidas, a mentira industrializada e a destruição da democracia

A mentira industrializada e o súdito ideal

Por: Rogério Baptistini, sociólogo e professor universitário

Em um ensaio em que comenta a mentira na era Trump, intitulado A Morte da Verdade, a crítica literária e vencedora do Prêmio Pulitzer Michiko Kakutani resgata uma advertência fundamental de Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo: “O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe diferença entre fato e ficção (isto é, a realidade da experiência) e entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento)”.

Os liberticidas usam mentiras industrializadas para explorar a frustração popular com as dificuldades da vida e gerar indignação e caos. É assim que avançam sobre as fronteiras da ordem que já não lhes serve. Atacam a democracia, — ou seja, as liberdades negativas — sob o pretexto de que o governo é fonte de corrupção e de que as normas e regulamentos que permitem a vida coletiva são ameaças à liberdade dos indivíduos — ou seja, a liberdade entendida como positiva. Fazem isso apoiando-se em pretextos bíblicos e em imagens que povoam a mente dos incautos. E, neste tempo das big techs, contam com as redes digitais para proliferar a indiferença pela verdade como coisa objetiva, como alerta Shoshana Zuboff em A Era do Capitalismo de Vigilância, que explica que as plataformas não são neutras, são projetadas para capturar a atenção e moldar desejos, não para emancipar.

São exatamente essas pessoas imbecilizadas pelos liberticidas, que Péricles classificava no mundo clássico como idiotas (do grego idiotés, idiota) por não participarem dos assuntos comuns, que hoje invadem a coisa pública e dão respaldo aos piores, levando à destruição da democracia por dentro. Diferentemente da Antiguidade, quando os indivíduos se contentavam em cuidar dos assuntos privados, deixando o destino comum sob o cuidado dos cidadãos que preocupavam-se verdadeiramente com o futuro da cidade, hoje indivíduos alienados e ressentidos, orgulhosos em sua ignorância, ocupam o proscênio, fazendo figuração para poderosos agentes políticos e econômicos com interesses na exploração do caos. No Brasil, esse fenômeno culminou no ataque de 8 de janeiro de 2023, quando a extrema-direita, alimentada por anos de desinformação, tentou subverter a ordem democrática.